Segunda, 20 de Novembro de 2017

Com sete vidas

7 ABR 2010Por 19h:56

Mariana Trigo, TV Press

Originalidade nunca foi o forte de "Cama de gato". Nem mesmo personagens complexos ou tramas muito elaboradas. Mas nem por isso a novela de Duca Rachid e Thelma Guedes deixou a desejar no horário das seis da Globo. Pelo contrário. Apesar de recorrer constantemente a fórmulas gastas na dramaturgia, o folhetim alcançou um feito já não tão comum nas produções atuais: empolgar do início ao fim. Entre conversas ouvidas atrás de portas, armações previsíveis e histórias água com açúcar, a novela conseguiu manter o fôlego e o ritmo ágil nesses quase seis meses no ar. E, mesmo tendo sofrido com a queda de audiência que assombra a dramaturgia da emissora, sustentou os índices na atualmente razoável casa dos 24 pontos.

A rapidez com que a história evoluiu e a grande quantidade de acontecimentos importantes por capítulo são os maiores atrativos de "Cama de gato". Com tramas repletas de altos e baixos, a novela cumpriu bem a função de prender a atenção do público e conseguiu despertar tanto simpatia quanto aversão por muitos dos seus personagens. Além do bom texto e da direção cautelosa, o destaque fica por conta de algumas boas atuações. É o caso da excelente Camila Pitanga, que interpretou com precisão a bondosa e sofrida mocinha Rose. Ou ainda de Paola Oliveira, que compôs com segurança a maquiavélica vilã Verônica. Apesar dos fortes traços maniqueístas das personagens, as atrizes conseguiram encontrar um tom que, apesar de ser aproximar do caricato, sempre convenceu.

O mesmo já não pode ser dito de Marcos Palmeira, que manteve uma atuação rasa como o insosso empresário Gustavo Brandão. A transformação do homem arrogante e prepotente em uma pessoa boa e regenerada beirou várias vezes a artificialidade. E, nessas circunstâncias, quem ganhou espaço foi a figura de seu ex-amigo Alcino, de Carmo Dalla Vecchia, que cresceu na trama e passou a disputar com ele o coração de Rose, com quem forma um par muito mais carismático.

A questão do resgate de valores – tema tratado de modo enfadonho com o protagonista Gustavo – assumiu novos contornos no núcleo jovem, que se destacou ao longo da novela. O maior exemplo disso é a história de Pedro, ótima interpretação do iniciante Ronny Kriwat. O rapaz, que no início da novela era rebelde e desinteressado, se transformou em um jovem correto e responsável ao se apaixonar por Débora, de Guta Gonçalves, com quem teve uma filha. O relacionamento bem conduzido entre os dois foi uma das gratas surpresas da história e, com as abruptas mudanças de rumos, contribuiu com um novo gás necessário à reta final do folhetim.

Mesmo apostando em uma dramaturgia convencional, "Cama de gato" conseguiu surpreender e empolgar. Prova de que um enredo bem trabalhado ainda consegue cativar e segurar a audiência sem precisar ousar. E, mesmo não inovando, a trama de Duca Rachid e Thelma Guedes sem dúvida trouxe um novo frescor para a faixa das seis da Globo, longe dos marasmos campestres e dos sotaques rurais que teimam em bater ponto no horário.

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