Domingo, 19 de Novembro de 2017

Com a família já presa, Siqueira resolve entregar-se à polícia da Capital

1 MAI 2010Por 06h:00
MICHELLE ROSSI E NADYENKA CASTRO

Vinte quilos mais magro e quase irreconhecível para quem o viu há anos, o empresário Gernival Siqueira da Silva, 55 anos, apresentou-se ontem à polícia. O titular da loja que levava o sobrenome dele e atuava no mercado de compra e venda de veículos em Campo Grande, chegou à Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Contra as Relações de Consumo (Decon) por volta das 13 horas, acompanhado do advogado Alberto Gaspar Neto, que defende também as filhas e a esposa dele, Flávia e Fábia Siqueira, e Ione Ribeiro da Silva, respectivamente, todas presas desde terça-feira. Fábia será solta hoje.
Gernival apresentou-se após acertar com a polícia  que não haveria nenhum repórter na delegacia no momento em que ele chegasse. O acordo foi cumprido, mas, quando saía do local para ser levado para o Instituto de Medicina e Odontologia-Legal (Imol), procedimento obrigatório a quem é preso, a imprensa o aguardava na calçada do prédio da Decon.
De acordo com o delegado Adriano Garcia, o empresário ficará preso em uma das celas da Delegacia Especializada de Repressão a Crimes de Roubos e Furtos (Derf). O interrogatório dele está marcado para as 9 horas de segunda-feira, na Decon. Ainda conforme o delegado, desde 2008, quando as investigações começaram, Gernival já morou em Goiânia, Londrina e Maringá. Nos últimos dias estava na área rural de Campo Grande e por isso não havia sido localizado. Sobre o fato de nunca ter ido à polícia desde que começou a ser investigado, o comerciante disse que o advogado dele dizia que não havia necessidade, e ele confiava nisso.
O dono do comércio que funcionou por 27 anos na Avenida Bandeirantes declarou à imprensa que está “tranquilo”. “Estou deixando a situação nas mãos de bons profissionais”, disse. Sobre o motivo de ter se apresentado, “é necessário por lei”, justificou. “Vamos ver o que vai dar”, finalizou.
Segundo o advogado Alberto Gaspar, Gernival estava escondido por conta das ameaças de morte que vinha recebendo em Campo Grande. “Ele estava sendo ameaçado constantemente até que um dia, em meados do ano passado, andava por uma rua da cidade, foi colocado num carro e levado a um lugar ermo, onde sofreu ameaça de morte. Desde então, mudou-se da cidade”, informou.
Não há registros de ameaça contra Gernival na Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. Constam sim vários registros dele como autor de crimes como injúria, ameaça, perturbação do trabalho e sossego alheio, estelionato, vias de fato e propaganda enganosa.    

Investigação
Há dois anos, a Decon deu início às investigações sobre golpes aplicados pela Siqueira Automóveis. Quando as primeiras denúncias se tornaram públicas, o local, de um dia para o outro, amanheceu “limpo”, sem nenhum veículo exposto para venda. Desde então, a polícia tenta localizar a família. Desde então, os telefones em nome deles foram cortados por falta de pagamento e bens penhorados e bloqueados pela Justiça devido às diversas ações que tramitam na área cível.
Como a polícia não localizava Gernival, nem as filhas e a esposa dele, e eles não apareciam por vontade própria nem mandavam representante, pediu a prisão. Flávia, a mãe e a irmã do comerciante, Aparecida Siqueira da Silva, tiveram a prisão preventiva decretada e só podem ser soltas por determinação judicial. Já Fábia teve decretada a prisão temporária (de cinco dias), e por isso sai da cadeia hoje. Ela mora no município paulista de Engenheiro Coelho, onde cursa o último ano de graduação em publicidade, e tem os estudos custeados pelo trabalho.

Prejuízo
Antes da prisão da família, 12 vítimas já tinham denunciado os golpes praticados pela empresa. De quarta-feira até o início da tarde de ontem, mais cinco vítimas apareceram. O prejuízo a essas 17 pessoas ultrapassa R$ 200 mil. No entanto, há informações de que existem 32 boletins de ocorrência feitos por pessoas que se sentiram lesadas pelo estabelecimento comercial.  
“Os relatos das vítimas dão conta de que elas deixavam o carro consignado para venda na garagem e não recebiam o dinheiro. Outras informaram que a loja se comprometia a pagar o restante das parcelas do financiamento de carros (alienados ao banco), mas a loja os vendia sem quitar as parcelas”, explicou o delegado Adriano Garcia. De acordo com ele, as quatro mulheres indiciadas pelos crimes de estelionato e formação de quadrilha declararam que os golpes começaram quando a empresa passou a apresentar problemas financeiros e a situação virou uma “bola de neve”.
Muitas vítimas procuraram somente a área cível, já outras nem mesmo se interessaram em buscar seus direitos. Ou por acreditar na impunidade dos autores ou até mesmo porque não conheciam seus direitos.
O advogado Alberto Gaspar protocolou ontem pedido de liberdade a Flávia Siqueira e Ione Ribeiro da Silva. Até o fechamento desta edição, a Justiça ainda não havia dado a decisão.

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