Quarta, 22 de Novembro de 2017

Cegueira coletiva

14 ABR 2010Por 23h:34
Somos permanentemente ameaçados por uma espécie de cegueira, na qual enxergamos, mas não deciframos códigos e não fazemos “leituras” das mensagens ali escritas. Somos cegos pelo desconhecimento, ou simplesmente, porque não queremos ver. Essa cegueira nos atinge em vários momentos da vida quando, por exemplo, nos “apaixonamos” por um bem e desejamos tê-lo e assim, não reparamos em seus defeitos. Se eles “saltam” aos olhos, o outro lado do cérebro ameniza, instigando a comprar, minimizando os possíveis defeitos, transformando-os “insignificantes” diante dos benefícios que acreditamos ter. Essa cegueira é a nossa negação diante do que está claro, visível e às vezes, ameaçador. Não queremos enxergar para não comprometer o que nos fascina, nos encanta e em certa medida, nos ilude. Muitos preferem não enxergar para não comprometer um benefício próprio, uma bolsa aqui, uma esmola ali, uma promessa lá.

A perpetuação no poder do controle total, da transformação da América Latina em uma “ditadura branca” ameaça a leveza da democracia. Quando a ditadura está explícita, sabemos quem são os inimigos. Quando a ditadura se disfarça em votos e reeleições forjadas, misturam-se democracia com continuísmo, projetos políticos a longos prazos, eternos, vitalícios. A censura nessas ditaduras passa a ser disfarçada e a violência é instaurada com as armas das ameaças e a semeadura do medo. Essa cegueira permite a construção de um novo império. Impérios são ruins para todos, pois torna seus dependentes inanimados.

Ditaduras são ruins. Se fossem boas, não precisariam de regras e leis ditadas de cima para baixo. Ditaduras se mantêm a custa da violência, de controle da liberdade, da imposição da censura, da intervenção permanente do estado sobre seus cidadãos. Enquanto os castelos se mantêm vistosos por fora, suas paredes vão se corroendo internamente, infestadas de ratos, cobras e outras pragas que só sobrevivem à sombra do que acontece no escuro, mais ou menos parecido com o que ocorria nos porões da ditadura aqui no Brasil. Muitos opositores definharam pela defesa de suas idéias no DOI-CODI, nas prisões clandestinas, nos inferninhos das cachoeiras e no pau de arara. Alguns, que sobreviveram, tiraram do período um aprendizado exercido na guerrilha e no terrorismo. Esse aprendizado, para uma minoria, hoje está evidenciado na vingança e traduzido no desejo de, no fundo da alma, fazer aquilo que  tanto combateram, ou diziam combater. Essas manchas colocam à mostra homens e mulheres na sua essência. São os casos de corrupção, de desvios de dinheiro, de mentiras e golpes rasteiros. Ficamos cegos para não enxergarmos o que o cheiro fétido denuncia em meio a podridão. Podridão de caráter, de dignidade, de respeito.

 Nos convencemos com as notícias dos jornais e ainda cegos, firmamos os olhos no Big Brother televisivo. Esmiuçamos nossos pensamentos para descobrirmos o objetivo dos que estão jogando. Encantamos-nos com o quê vemos, para não enxergarmos o que não queremos perceber. E pior, ainda pagamos para esvaziar uma casa já “vazia”. Depois da casa esvaziada, teremos uma “copa” a encher nossos olhos e ocupar nossas mentes. Primeiro somos acalmados pelo coração, depois, já amolecidos, domados pela mente. Quando a Copa do Mundo terminar, a campanha eleitoral entrará no seu ápice. Poderemos continuar cegos. Cegos de alegria ou de tristeza, enaltecendo ou sucumbindo nossa condição de brasileiros, como se o resultado nos esportes  nos tornasse mais ou menos capazes.

Nossa cegueira transcende aos fatores que escrevem nossa história. Esquecemos do que retarda o desenvolvimento do país, e só lembramos-nos do que vemos no momento real, instantaneamente. Nossa memória está treinada para receber grandes quantidades de informações, todas resumidas, de poucas linhas. Não nos aprofundamos em reflexões e questionamentos. Só enxergamos o que é impactante, ato contínuo, esquecemos rapidamente. Nossa cegueira não está necessariamente nos olhos, pode estar na ausência da percepção dos perigos que nos rodeiam.

Altemir Luiz Dalpiaz, Professor, Mestre em Educação, altemir@dalpiaznet.com.br

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