Sexta, 17 de Novembro de 2017

Brazyl, pai de lula

2 ABR 2010Por 21h:15

O Cine Cultura exibe o filme "Lula, filho do Brasil" (2009, Fábio Barreto), após recente apresentação em outros cinemas da cidade. Porque o filme beira a um fracasso de bilheteria se tem (ou tinha) tudo para dar certo: é uma super-produção (para os padrões brasileiros) com uma grande campanha de marketing no seu lançamento, tecnicamente bem feito, com bons atores, tem uma bela história que é a do atual presidente da República quem alcança altíssimos índices de popularidade mesmo em final de mandato?

O filme se inicia com a migração de uma família do Nordeste para São Paulo, fugindo da miséria, em busca de oportunidades de sobrevivência. Lula, o protagonista (interpretado por vários atores assim que a personagem ganha idade), sofreu dramas pessoais. Viu o pai se separar da mãe (quem o criou com o restante de seus muitos irmãos e esteve sempre ao seu lado nos piores momentos de sua vida). Trabalhou na infância. Conseguiu se empregar com trabalho de carteira assinada que lhe dava mais que o salário-mínimo. Casou-se. A mulher morreu no parto, junto com a criança, em hospital público. Viúvo, Marisa foi amor à primeira vista. Entrou para o sindicato. Mais tarde foi eleito seu presidente e enfrentou uma barra pesadíssima: a reivindicação salarial foi misturada pela Ditadura como se fosse uma luta contra o regime político e o sistema capitalista. Foi preso. Em face da reação dos trabalhadores foi solto. Fim do filme. As rápidas imagens finais é a do ex-sindicalista, já em carro oficial, com a faixa presidencial no peito, ao lado de d. Marisa, e seu discurso, em voz-off, dedicando aquela posse a sua finada mãe, que sempre o incentivou. Emocionante. O filme não revive antipatias políticas: não atinge nem a direita nem a esquerda, não deprecia as autoridades constituídas ao tempo da repressão. Quando necessita mostrar a cara do opressor, e em única vez, o filme o coloca com uniforme verde, sem identificação de hierarquia militar, um carcereiro de delegacia. Nos raros momentos de contextualização histórica aparece, na televisão da sala, reportagem do "Jornal nacional", fugindo, assim, de informações mais elaboradas ao espectador, talvez porque o diretor entenda sejam de difícil compreensão para o "grande público", como se diz. Afinal, porque o filme não é um sucesso?

Os críticos de cinema dizem que a obra não tem méritos artísticos, ou seja, é um filme que nem de longe está destinado a ser uma referência cinematográfica, como, por exemplo, "Vidas secas" (1963, Nélson Pereira dos Santos) "Rocco e seus irmãos (1960, "Rocco e i Suoi Fratelli", Luchino Visconti), obras marcantes do Cinema Novo brasileiro e do Neo-Realismo italiano que tratam justamente da migração das famílias pobres para lugares com mais oportunidades e, embora clássicos, não foram, ao seu tempo, sucessos de bilheteria.

Os comentaristas políticos denunciam que o filme é uma imoralidade pelo seu uso eleitoral, no que estão certos na denúncia, mas que não significa estejam com a razão, dependendo do tom de suas críticas, e para se livrarem da acusação de ignorância, ou refinada má-fé, devem acrescentar à denúncia que, afinal, a Política, ou o Poder, sempre fez uso do Cinema, ou vice-versa, quer sejam obras do cinema engajado (militante – quando a mensagem ideológica é direta -, ou oculto – quando a mensagem é sub-reptícia) ou financiado, seja por Hitler ou Stálin. Mas não é a percepção do público de que o filme seja oportunista que não leva multidões ao cinema. Enfim, porque o sucesso de bilheteria não chegou ao filme?

Aqui uma anotação: nos letreiros finais (que poucos leem) está noticiado que "é uma obra de ficção". Como personagem fictícia Lula é apresentado com comportamento ultra politicamente correto, sem o mínimo defeito, sequer um mal-pensamento, uma vingancinha qualquer. Parece que os retirantes nordestinos, e seus descendentes, talvez porque achem que a vida lhes é dura, não acreditam muito nessa vitoriosa trajetória de um filho do Brasil. Os trabalhadores, porque hoje o movimento sindical brasileiro anda esvaziado, talvez suspeitem de seu bom-mocismo. E o espectador, talvez porque considere os políticos brasileiros sinônimos de malfeitores, conclui que um herói sem nenhum defeito é igual ao "cowboy" cinematográfico dos tempos de outrora que atiravam, davam socos, rolavam na terra, montavam até em touro e o chapéu não caía da cabeça.

João José de Souza Leite, foi presidente do Cineclube de Campo Grande.

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