Terça, 21 de Novembro de 2017

SALTO

Brasil pode fazer parte do maior laboratório de ciências da atualidade

14 SET 2010Por Ana Luiza Sério Especial para o G1, de Genebra19h:08

O Brasil pode se tornar membro do maior empreendimento científico da história, o acelerador de partículas LHC (Grande Colisor de Hádrons, na sigla em inglês). O Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern, na sigla em francês), responsável pelo empreendimento, decidiu no final de julho permitir a entrada de países de outros continentes. Caso a associação se confirme, o país poderá participar de licitações do projeto em diversas áreas, até o limite da sua contribuição financeira para os estudos. Há “interesse explícito” de empresas nacionais de desenvolver projetos de alta tecnologia para o Cern, informa Sérgio Novaes, cientista da Universidade Estadual Paulista (Unesp).


Uma das instalações do Grande Colisor de Hádrons (LHC), megatúnel para análise de partículas subatômicas (Foto: Andrew Strickland / cortesia Cern 7-8-2010)Atualmente o conselho do Cern é composto por 20 países-membros (europeus) e 6 países observadores: Índia, Israel, Japão, Rússia, Turquia e Estados Unidos. Além disso, outros 37 países, entre os quais o Brasil, colaboram com as pesquisas. Com a mudança, o Cern passaria a ter países-membros plenos e associados. Os associados podem se tornar plenos no futuro.


Cientistas do Cern celebram o sucesso da
experiência com o LHC, próximo à cidade suíça de
Genebra (Foto: AFP / 30-3-2010)O maior experimento científico do mundo consiste em colidir partículas no nível mais alto de energia já tentado, recriando as condições presentes no momento do Big Bang, que teria marcado o nascimento do universo, 13,7 bilhões de anos atrás.
a teoria

O LHC, situado em um túnel subterrâneo circular de 27 quilômetros de extensão sob a fronteiro franco-suíça, começou a circular partículas em novembro de 2009 (depois de ser fechado em setembro de 2008 por causa de superaquecimento). Em 30 de março deste ano, o LHC promoveu as primeiras supercolisões de partículas ‘de laboratório’ da história.

A partir desta quarta-feira (15), uma comissão brasileira em visita a Genebra fará uma série de reuniões para estabelecer os termos do acordo com o centro de pesquisas. A comissão é composta pelo professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e diretor da Sociedade Brasileira de Física (SBF), Ronald Shellard, por Novaes, da Unesp, e por Ademar Seabra Cruz Júnior, diplomata brasileiro da divisão de Ciência e Tecnologia.

saiba mais
 
Brasileiros explicam estágio atual dos experimentos no Colisor de HádronsEntenda a relação da maior máquina do mundo com a origem do UniversoCientistas brasileiros acompanham em SP colisão de prótons do LHCDe acordo com Novaes, a associação traz inúmeras vantagens para o país. “O mais importante é que o Brasil passa ter direito de participar das licitações realizadas pelo Cern, em diversas áreas, até o limite da contribuição brasileira. Há o interesse explícito de empresas brasileiras de desenvolver projetos de alta tecnologia para o centro.”

Os países europeus fazem uma contribuição anual para o centro que é proporcional ao seu PIB – para o Brasil, o aporte seria de aproximadamente US$ 100 milhões (R$ 170 milhões). “Evidentemente não é isso que estamos negociando, o valor proposto está em torno de 10% desse valor”, diz Shellard. “Além disso, esse dinheiro que seria investido não viria do orçamento de ciência, ou seja, estaríamos agregando investimento em ciência no Brasil. É preciso ressaltar que estaremos investindo dinheiro em um laboratório que passa a ser nosso também.”


Um dos detectores do LHC
(Foto: Maximilien Brice / Cern 16-06-2008)Para Novaes, o acordo não beneficiaria apenas o Brasil. “O tipo de ciência que se faz no Cern requer uma internacionalização enorme. O nosso experimento, por exemplo [CMS, Solenóide compacto de múons], envolve 39 países e 185 universidades, então a internacionalização ocorre de fato em cada um dos experimentos.”

Shellard destaca também a possibilidade de formação de engenheiros brasileiros, a disseminação pelo país da área de física de altas energias, “atualmente restrita a São Paulo e Rio de Janeiro”, e ainda a possibilidade de aproveitar o know-how para aceleradores brasileiros, como o do Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS), na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O Brasil já participa dos quatro principais experimentos realizados no LHC (Atlas, Alice, CMS e LHCb), com cerca de 70 pesquisadores ligados a instituições brasileiras.

Leia Também