Sexta, 24 de Novembro de 2017

Bolívia pressiona para Brasil adequar hidrovia

26 JUL 2010Por 06h:57
Sílvio Andrade, Corumbá

Enquanto a Bolívia não legitima sua soberania por 48 quilômetros na Hidrovia Paraguai-Paraná, na tríplice fronteira com o Brasil e o Paraguai, em Corumbá, o escoamento de minério e derivados de soja daquele país pelo Pacífico vai continuar alimentando uma polêmica histórica: as dificuldades de acesso ao mar pelo Tamengo. O canal deságua no Rio Paraguai e limita o tráfego de grandes comboios.
As restrições do canal de 10,5 quilômetros, grande parte em território brasileiro, tem sido discutido em nível diplomático e, com certeza, será mais uma pauta da próxima reunião do CIH (Comitê Internacional da Hidrovia), que reúne o Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia e o Uruguai, em agosto. Além de estreito, o Tamengo tem baixo calado devido a uma laje de pedra, que os bolivianos insistem em desobstruir.
Na semana passada, o assunto voltou a ser discutido pelas autoridades brasileiras, em Corumbá, com a presença da Marinha, que dita normas de navegação e sinalização da hidrovia, Ministério dos Transportes e a embaixada do Brasil em La Paz. O novo embaixador Marcel Fortuna Biato, sabendo das pressões que enfrentará, pediu detalhamento do problema e possíveis alternativas para acalmar os vizinhos.
As limitações do canal, segundo técnicos do Ministério dos Transportes e da Marinha, são difíceis de resolver porque envolve questões ambientais, como o derrocamento de rochas, que não passa na licença do Ibama, e outros obstáculos. Na década de 60 foi construída uma estrutura para captação de água do Paraguai justamente no encontro do rio com o canal. O vão de 65 metros permite passagem de até duas barcaças.

Sem logística
Sem uma alternativa brasileira para a Bolívia chegar ao mar, acordo previsto no tratado que incorporou o Acre, no outro lado da fronteira cresce a produção de soja e farelo de soja e a mineradora Jindal Steel anunciou as primeiras exportações de minério de Mutum, maciço situado em Puerto Suarez (18 quilômetros de Corumbá). A empresa indiana prevê investimentos de R$ 2 bilhões, incluindo uma siderúrgica, e não tem logística.
Corumbá também vive a expectativa de implantação de um polo gásquímico binacional, o que demandará infraestrutura de transportes. A Jindal estaria disposta a financiar uma rodovia desde sua planta até a barranca do Rio Paraguai, em Morrinho, onde a Prefeitura de Corumbá planejava construir um porto para atender também as mineradoras brasileiras e a ZPE (Zona de Processamento de Exportação).

Por ferrovia
O embaixador vai propor aos vizinhos que utilizem o sistema intermodal de Corumbá e Ladário para resolver o problema de logística a curto prazo, enquanto não sai o terminal de Puerto Bush prometido pelo presidente Evo Morales nas águas soberanas. O minério e a soja poderiam seguir por um ramal ferroviário da fronteira aos terminais de Ladário, de 13 quilômetros, onde seriam transpostos para grandes comboios.
O ramal do lado brasileiro, no entanto, está sucateado e não há interesse da ALL, empresa concessionária da ferrovia Noroeste, em recuperá-lo. A ligação ferroviária aos portos da Ahipar (Administração da Hidrovia do Paraguai) e da Granel Química também interessa às mineradoras brasileiras. A Vale leva por rodovia parte de sua produção de Urucum até o porto da Sobramil, em Corumbá.

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