Sábado, 18 de Novembro de 2017

Bloco Sandálias de Frei Mariano abre carnaval de rua

9 FEV 2010Por SÍLVIO ANDRADE22h:18
O corumbaense sai às ruas na noite de hoje para “xispar” o azar e abrir o carnaval de rua. O Bloco Sandálias de Frei Mariano, criado em 2006 para satirizar a lenda segundo a qual o polêmico missionário Mariano de Bagnaia rogou uma praga na cidade, no final do século 19, deve reunir duas mil pessoas. Por ironia, os carnavalescos desfilam na Rua Frei Mariano para dispersar na Avenida General Rondon. Por décadas se atribuiu a decadência de Corumbá à lenda cultivada por meio século, desfeita quando fossem encontradas as sandálias do religioso jogadas no Rio Paraguai. Na realidade, o declínio ocorreu por mudanças econômicas, isolamento e ausência do poder público. Mas, por vezes, motivado pelo ceticismo, o corumbaense lembrava das tais sandálias para tentar entender por que a cidade parou no tempo. A reconstrução da histórica cidade, nesta década, e a autoestima aflorada fizeram o povo se esquecer do estigma e, definitivamente, apagá-lo da memória por meio da descontração e do bom humor. Assim surgiu o bloco carnavalesco com uma letra do samba-enredo ironizando a turma do diz que me diz: “Fora com o chulé do padre! /Fora com o azar!/ Hoje eu quero é folia/Hoje eu quero rosetar”. O símbolo do bloco e seu estandarte são as sandálias do frei, que deixou a cidade em 1886 com a fama de caloteiro por causa de uma dívida com o montador do relógio da matriz de Nossa Senhora da Candelária, que mandou construir depois da Guerra do Paraguai (1864-1867). Os jornais noticiaram o fato, relatando versões conforme a tendência política. Uma delas: a cidade negou ajuda ao pároco. Figura emblemática O episódio contribuiu para criar uma figura mística e dramática do homem considerado o “Missionário do Pantanal”. Hoje, no entendimento da maioria dos corumbaenses, especialmente daquelas pessoas ligadas à cultura, Mariano de Bagnaia deixou de ser o vilão da história. Sobrevivente da guerra, onde foi torturado, o frei é considerado um personagem importante da cultura local e teria sido mal compreendido. “O bloco não apenas cultiva a lenda pelo lado positivo, exorcizando o azar, como diz a letra do samba”, diz a superintendente de Cultura, Heloísa Helena Urt. “É um resgate da nossa própria história, tornando em evidência o papel do Mariano. Foi ele quem trouxe a imagem da nossa padroeira (Nossa Senhora de Candelária), era um homem revolucionário para sua época e teve conflitos com os coronéis”. O surgimento do bloco e a valorização dada pela prefeitura ao carnaval dos velhos tempos e cultural, segundo a superintendente, inserem a festa do Momo no contexto histórico e do desenvolvimento de Corumbá. “Lembramos das sandálias sem aquele negativismo do passado, até porque a lenda se integrou à nossa cultura, assim como o corso, as pastorinhas e os cordões”, observa Heloísa Urt.

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