Sexta, 17 de Novembro de 2017

As usinas de álcool e açúcar

1 MAI 2010Por 05h:30
Em 1973, quando José Fragelli era governador do velho Mato Grosso, o grupo da Fazenda Bodoquena S.A., liderado pelo grande vulto da indústria açucareira daquela época, Orlando Ometto, que foi o maior líder açucareiro do país, em Barra Bonita, e mais ainda a empresa Votorantim e também a Boa Vista, do Banco Bradesco, resolveram construir, na Fazenda Bodoquena, a maior usina de álcool e açúcar não só do Brasil, como de todo o mundo. Chegaram a plantar, no início, mais de 1000 hectares de cana para mudas destinadas ao seu grande projeto industrial, interrompido pelos ecologistas e ambientalistas em grande campanha com passeatas em Campo Grande contestando este investimento.

 Este assunto foi muito mal conduzido tanto pelos ecologistas como por políticos, pois não passa na cabeça de ninguém, muito menos dos grandes empresários que são competentes, implantar uma usina de álcool e açúcar na Nhecolândia, no Paiaguás, no Abobral, Jacadigo ou Nabileque, porque estas regiões não absorvem tais investimentos. Estas áreas são inundáveis durante seis meses do ano, a terra é fraca, arenosa, imprópria para o plantio de cana-de-açúcar, e além disso não têm também nenhuma infraestrutura para absorver um empreendimento de tal vulto, como estradas e energia elétrica. Todavia, existe, no município de Corumbá, área que absorve estes investimentos, no percurso da antiga estrada de ferro da Noroeste e da Rodovia BR-262 com destino a Corumbá, desde a Estação Saloba, e também da vicinal que parte da Estação Guaicurus rumo sul, com destino à Estância Esmeralda e de lá, à direita desta estrada, até perto da Estação Carandazal. A Serra da Bodoquena nasce nesta região com destino a Porto Murtinho e existe um grande leque de terras planas e altas, não sujeitas a inundação em qualquer época do ano, com área estimada em 300.000 hectares, na saia da serra, entre os morros Azul, Baú, Pontudo, Bugio e Cabeça de Boi, onde não existem rios para poluir o Pantanal, e têm ótima infraestrutura, onde lá cruzam rede elétrica para Corumbá, gasoduto para Paulínia, rodovia 262 Corumbá-Vitória e estrada de ferro ligando Brasil à Bolívia.

 As terras desta região são de ótima qualidade e as estações consistem em seis meses de chuva e seis meses de seca, quando a cana-de-açúcar enxuga, produzindo muita sacarose, e os caminhões, neste período, podem trafegar facilmente nos canteiros para receber a cana cortada. A não implantação desta usina na região da Bodoquena, entre Corumbá e Miranda, foi o maior desastre econômico para o Estado na arrecadação de ICMS e também para as populações destes dois municípios, engessando-as e levando-as ao empobrecimento, e até hoje esta região está em grave crise econômica. Na época, sem defesa das nossas entidades de classe e dos políticos da região, a Assembleia Legislativa em Cuiabá, sem maior conhecimento de causa e sem mandar fazer pesquisa por uma comissão de agrônomos, engenheiros florestais, economistas, ambientalistas e ecologistas para verificar a real viabilidade econômica desta região para a implantação de uma usina de álcool e açúcar, pressionada por passeatas em Campo Grande, aprovou a proibição de usinas nesta região, num profundo desconhecimento da realidade local. O governador José Fragelli sancionou este projeto de lei, que condenou os municípios de Miranda e Corumbá à pobreza. Resultado: hoje, a população jovem destes dois municípios sai para estudar e, depois de suas formaturas, não regressa mais a sua terra natal por falta de opções de trabalho e desenvolvimento. Corumbá e Miranda estão hibernadas desde aquela época, e vemos até a sua população nativa todos os dias abandonar as suas origens à procura de trabalho em outras regiões.

Em 1982, o governador Pedro Pedrossian, pressionado, proibiu mais uma vez o plantio de cana-de-açúcar no Pantanal e incluiu também a proibição de usinas álcool-açucareiras na Bacia do Alto Paraguai, por entender que o vinhoto escorreria pelos córregos e rios, atingindo o Pantanal. Hoje, o vinhoto é contido e resfriado em grandes açudes e depois é utilizado para fertilizar o solo para a produção de alimentos, não existindo mais, no momento, esta preocupação ambiental. Esta proibição  engessou  também o progresso em toda a Bacia do Alto Paraguai, que tem milhares de hectares de terras férteis e está à direita da BR-163 de quem parte de Campo Grande, passando pelos municípios de Jaraguari, Bandeirantes, Camapuã, São Gabriel, Rio Verde, Pedro Gomes, Coxim e Sonora até entrar no estado de Mato Grosso, com destino a Cuiabá, proibindo a plantação de cana-de-açúcar, que recolhe o CO2 da atmosfera desde o seu plantio, e automaticamente a construção de usinas álcool-açucareiras.

A margem esquerda da rodovia 163, neste projeto, ficou como zona permanente de preservação ambiental. Na época, houve uma discussão política, e não científica, entre as partes sobre o assunto. Hoje, a Embrapa e mais 92 entidades de classe da nossa sociedade, após estudos científicos, concluíram que é viável plantar cana-de-açúcar nesta área desde que sejam respeitados os critérios ambientais por estas usinas. O governador do Estado de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, ciente da evolução deste problema, com muito acerto e também com apoio de 20 dos 24 deputados estaduais, sancionou uma nova Lei Estadual contrária às normas Estaduais e Federais em vigor, que proibiam a instalação de usinas álcool-açucareiras na Bacia do Alto Paraguai, existindo, assim, um grande litígio neste assunto que poderá ir até o Supremo Tribunal Federal. Desejo dar o meu depoimento do que vi acontecer no Triângulo Mineiro anterior ao ano de 2000, quando ainda não tinham sido instaladas usinas álcool-açucareiras nesta região. O meio rural, nos seus diversos municípios, vivia em grandes dificuldades econômicas e seus proprietários viviam com muitas dificuldades para manter a propriedade e produzir, com a desvalorização do gado de corte. Hoje, instaladas as usinas álcool-açucareiras, que absorveram estas áreas médias e pequenas, toda a região se transformou num grande centro produtor de álcool e açúcar e as usinas trouxeram trabalho, emprego, produção, faturamento, dinheiro e automaticamente prosperidade e uma imensa valorização nas terras destas regiões.

Atualmente, os seus proprietários mudaram de status, têm casa boa na cidade, automóvel de marca e também sobra dinheiro para viagens no decorrer do ano e os imóveis das cidades dobraram de preço. Pelo exposto, não tem sentido condenar municípios ao empobrecimento e ao subdesenvolvimento e cabe aos senhores Vereadores, Prefeitos, Deputados Estaduais e Federais, Senadores e Governador o dever de defender estes municípios, promovendo o bem-estar social das populações que representam nos Poderes Legislativo e Executivo.  

Paulo Machado Borges, pecuarista 

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