Quinta, 23 de Novembro de 2017

Aquém das aparências

7 ABR 2010Por 19h:59

Márcio Maio, TV Press

 

Explorar tipos físicos fora dos padrões ditados pela sociedade costuma ser uma estratégia para gerar conflitos dentro da dramaturgia. Seja para garantir uma lição de moral, uma dose de assistencialismo ao projeto ou, na maioria das vezes, fazer rir. Ou, em alguns casos, tudo ao mesmo tempo. "Bela é engraçada por ser feia. Mas, também por isso, é capaz de transmitir uma lição de vida que, espero, fique clara até o fim da novela", analisa Gisele Joras, responsável pelo texto de "Bela, a feia", da Record.

Na adaptação do sucesso colombiano "Betty, a feia", Gisele Itié foi caracterizada de maneira irreconhecível para encarnar a personagem desengonçada. Desde sobrancelhas engrossadas, enchimentos e peruca, muitos são os elementos para enfear a atriz em cena. Olívia Torres não passa por tantas transformações para encarnar a adolescente complexada Rita, de "Malhação". Mas assume que sofre com o enchimento, que a deixa com um aspecto bem diferente dos seus 55 quilos distribuídos em 1,70 m de altura. "É um sufoco grande. Tomo muita água durante as gravações para não passar mal", afirma a moça, que chegou a emagrecer cinco quilos nessa brincadeira.

Nem sempre essa síndrome de "Betty, a feia" traz problemas para suas intérpretes. Em "Ribeirão do tempo", Liliana Castro interpreta a mocinha Filomena, que além de sofrer com o alcoolismo do pai, está sempre equivocada em seu visual. Mas nada que ultrapasse a falta de maquiagem e o total mau gosto para escolher combinações e tamanhos de roupas. "Acho isso ótimo porque não gosto de usar maquiagem. Me arrumo muito rápido para as gravações", entrega Liliana. Fernanda de Freitas também passa por isso na série "S.O.S. emergência", que estreia neste domingo, na Globo. A atriz interpreta Evelyn, uma médica que ainda não se descobriu sexualmente e, com isso, não esboça qualquer vaidade. "Conheço muitas pessoas assim fora da ficção. Claro que é um prato cheio para o humor, mas acho bacana mostrar que essas pessoas não devem ser julgadas só pela aparência", valoriza ela, que só aparece de cara limpa, cabelo preso e óculos gigantes.

Mas a falta de vaidade não traz só a rapidez na hora de se arrumar como benefício. Joana Lerner ficou extremamente feliz quando foi escalada para interpretar a "quatro olhos" Heloísa, de "Tempos modernos". Primeiro, porque sabia que seus dotes físicos não tinham influenciado ninguém na hora da escolha. E, por mais incrível que pareça, pela exposição. Mesmo em seu papel de maior estaque na tevê até agora, a descaracterizada Joana não sofre com a fama de uma pessoa pública. "Desde que estreou o primeiro capítulo, só fui reconhecida por uma pessoa. E, até agora, não entendi como ele conseguiu, já que fico muito diferente no ar. Isso é bom porque estou na tevê, mas não perdi minha privacidade", opina.

Interpretar uma feiosa uitas vezes é uma forma de tentar se livrar de um estereótipo criado pela própria tevê. Foi exatamente isso que sentiu Sílvia Pfeifer quando, na década de 90, foi convidada por Gracindo Jr. para encarnar um jaburu em um episódio do programa "Você decide", da Globo. "Três atrizes tinham recusado e eu aceitei. É bom diferenciar suas atuações. Quero fazer mais mulheres sem glamour, mas sei que vai ser difícil me convidarem. Talvez eu tenha de me impor no teatro", reflete ela, que trilhou uma carreira bem-sucedida nas passarelas.

 

Do outro lado

Não só as mulheres mudam o físico para encarnar tipos fora dos padrões. Bruno Gagliasso mesmo precisou usar maquiagem para estar constantemente abatido e engordou 12 quilos em função do esquizofrênico Tarso de "Caminho das Índias". Na época, o ator leu que um dos efeitos colaterais da medicação usada nesses tratamentos é o ganho de peso. "Como eu nunca tinha engordado para um trabalho, decidi me testar para ver até onde eu chegava. Cheguei nos 12", brinca ele, que já perdeu cerca de cinco para encarnar o canalha Berilo na novela "Passione", prevista para entrar em maio na grade da Globo.

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