Sexta, 24 de Novembro de 2017

Aplicações intrigantes

9 JUL 2010Por 08h:01
Em outubro do ano passado, depois que o Governo estadual lançou o programa MS Forte, que prevê investimentos superiores a R$ 3 bilhões no Estado, o ex-governador José Orcírio (PT) classificou o anúncio como peça de ficção, pois alegava não existir dinheiro em caixa. Em resposta, o então secretário de Obras, Edson Giroto, afirmou que o Estado dispunha de R$ 2,4 bilhões depositados em bancos, rendendo juros. Rapidamente, o próprio governador tratou de “desmentir” o subalterno, dizendo que “ele devia estar com a cabeça no mundo da lua quando falou aquilo”, depois que deputados começaram a pedir explicações sobre estas supostas aplicações financeiras.
            Mais de meio ano depois daquela polêmica, eis que o assunto volta à tona. De acordo com dados oficiais analisados pelo deputado petista Paulo Duarte, que é fiscal de rendas e já foi secretário estadual de Fazenda, o Governo estadual tinha, sim, dinheiro rendendo juros. O montante, porém, era, em 2009, de R$ 1,3 bilhão. Ou seja, tanto o governador quanto o secretário falaram meias verdades à época, para não dizer que mentiram sobre o dinheiro que estava rendendo juros. O primeiro garantiu que eram R$ 2,4 bilhões e o segundo, que tudo não passava de fantasia do outro. A dúvida, agora, é saber quem dos dois se “enganou”. À época, o mesmo deputado que agora cobra explicações afirmou que o secretário, por ser técnico, não iria se equivocar sobre um assunto desta natureza. A dúvida, então, é saber onde está a outra metade do dinheiro que estava rendendo juros.
            O questionamento principal, porém, também feito pelo parlamentar, é relativo ao tipo de aplicação financeira. Segundo ele, os juros foram inferiores aos da poupança, que são irrisórios e praticamente empataram com a inflação em 2009. Conforme os dados oficiais, o dinheiro rendeu em torno de R$ 82 milhões no ano passado. Se estivesse depositado na poupança, teria rendido ao menos R$ 10 milhões . Ou seja, ao que tudo indica, o Governo perdeu dinheiro, pois a inflação, principalmente da construção civil, foi maior que os juros obtidos. O secretário de Fazenda Mário Sérgio Lorenzetto, normalmente arredio a explicações, mudou de estilo e ontem mesmo tratou de contestar o deputado, dizendo que o dinheiro fora muito bem aplicado e que os questionamentos de seu antecessor não faziam sentido.
    Cada administrador tem sua forma de gerir as contas. E, se o governador entende que é melhor acumular dinheiro e lançar grandes pacotes de obras de uma só vez, às vésperas de período eleitoral, é um direito que lhe assiste. Porém, o que não pode ser tolerado é que dinheiro do contribuinte seja mal administrado. Anualmente o Estado desembolsa em torno de meio bilhão para pagar dívidas com a União. A quase totalidade vai para os juros. Então, é um contrassenso manter dinheiro aplicado numa conta, com retorno irrisório, e do outro lado continuar pagando juros sufocantes. Nenhum pai de família minimamente cuidadoso com suas contas é tolo a este ponto. E, é difícil de acreditar que técnicos experientes cometam este tipo de asneira.  Então, o filme "Golpista do ano", que está nos cinemas da Capital, talvez jogue uma luz sobre este complicado mundo financeiro, no qual ninguém fala a mesma língua.

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