Segunda, 20 de Novembro de 2017

Altas habilidades

23 MAR 2010Por 07h:51
E m vez de jogar bola, brincar na rua e empinar pipas, elas preferem estudar, escrever, ler e desenhar. Calhamaços com mais de 500 páginas são devorados em dias, e os traços de seus desenhos têm a beleza e a precisão de grandes artistas plásticos. Elas são crianças com altas habilidades, porém, muitas vezes as escolas, e mesmo os pais, não sabem como lidar com os grandes dotes que elas têm. Em Campo Grande, existem dois centros públicos que atendem a crianças com ritmo de desenvolvimento intelectual diferenciado: o Núcleo de Atividades de Altas Habilidades e Superdotação (NAAH/S), ligado aos governos estadual e federal, e a Divisão de Educação Especial da Secretaria Municipal de Educação (Semed). Ambos os órgãos trabalham com salas de enriquecimento curricular, ou seja, espaços onde são oferecidas oficinas em diversas áreas, como pintura, música e, até mesmo, pesquisas acadêmicas, todas monitoradas por profissionais especializados. Entre os alunos atendidos pelo núcleo está a adolescente Bianca (nome fictício), que frequenta as atividades do NAAH/S há dois anos. Com facilidade para atividades acadêmicas e as artes plásticas, ela consegue devorar facilmente um livro com mais de 400 páginas, como “A casa dos espíritos”, complexo romance da chilena Isabel Allende. Depois de seis meses na oficina de desenho, Bianca desenvolveu grande habilidade para as artes pictóricas. “Sempre gostei de desenhar e resolvi tentar esse ano, acho que o resultado foi bom”, considera a adolescente de 12 anos. O jeito tímido esconde o vocabulário refinado e o bom uso da língua portuguesa. “Prefiro não falar que tenho altas habilidades, pois isso cria expectativa entre as pessoas e acaba sendo chato para mim”, esclarece. Os pais demoraram a perceber sua condição especial. Segundo ela, a mãe acreditava que a menina tinha apenas facilidade para aprender. “Um dia a equipe do núcleo visitou o colégio e identificou que eu tinha o perfil de alguém com altas habilidades. Fiz uma avaliação para constatar isso e iniciei as oficinas”, lembra. Acompanhamento As equipes do NAAH/S e da Divisão de Educação Especial da Semed visitam as escolas em busca de alunos com comportamentos característicos de crianças com altas habilidades, que, muitas vezes, são vistas como estranhas pelos professores e colegas. “Por aprenderem rapidamente, eles deixam de prestar atenção nas aulas e são contestadores, desafiando e inquirindo professores, o que causa estranhamento”, explica Graziela Cristina Jara, coordenadora do núcleo no Centro Estadual de Educação Especial e Inclusiva. Segundo ela, crianças com superdotação são vistas pelo Ministério da Educação como pessoas com necessidades especiais. “Privar as crianças de um acompanhamento especializado é menosprezar um grande potencial intelectual”, ressalta. O núcleo considera como crianças com altas habilidades aquelas que apresentam grande facilidade de aprendizagem, que dominam rapidamente conceitos, procedimentos, atitudes e são marcadas pela facilidade com que elas se engajam em suas áreas de interesse. No NAAH/S, as crianças e adolescentes são assistidos por professores e psicólogos que passam por capacitação para trabalhar com estes alunos. São realizadas oficinas de música, xadrez, artes, informática, literatura, idiomas e projetos acadêmicos, onde as crianças podem pesquisar temas de seus interesses. Bianca participou dessa oficina em 2008, pesquisando poetas sul-mato-grossenses, por exemplo.

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