Milhares de servidores municipais de Campo Grande e do Governo do Estado contraíram empréstimos e pagam juros de até 4,5% ao mês
O Banco Central (BC) decretou nesta quarta-feira (18) a liquidação extrajudicial do Banco Pleno (ex-Voiter), que já pertenceu ao conglomerado do Master, investigado por supostas fraudes financeiras. O Pleno é, por sua vez, é proprietário da empresa Credcesta, que concedeu cartões de crédito consignados a milhares de servidores da prefeitura de Campo Grande e do Governo do Estado e foi alvo de uma série de denúncias publicadas pelo Correio do Estado em meados de 2024 por conta da alta taxa de juros, da ordem de 4,5% ao mês.
O Credcesta começou a oferecer crédito a servidores da prefeitura de Campo Grande em julho de 2024. Menos de dois meses depois, doze sindicatos e associações que representam servidores protocolaram pedido de revisão do decreto emitido em 19 abril.
Eles denunciavam que o decreto restringiu o acesso aos empréstimos consignados tradicionais e abriu as portas para o chamado cartão consignado de benefícios.
Conforme um ofício entregue à prefeitura pelo Fórum dos Representantes dos Servidores, Sindicatos, Associações e Entidades de Campo Grande (FORSSA), o decreto tem “inexorável predileção para que seja mantida a margem do cartão consignado de benefício (que pode operar com cobrança de juros de até 4,5%) em detrimento da margem para operações de empréstimo que tem juros de mercado com percentual médio de mercado na casa de 1,7%”.
Além disso, servidores denunciavam que os funcionários do Credcesta, que receberam da prefeitura o telefone de praticamente todos os funcionário, não explicavam é que os juros eram bem maiores que os dos consignados tradicionais e que os descontos em folha seriam somente relativos ao valor mínimo da fatura, o que levava os tomadores do empréstimo a entrarem numa espécie de bola de neve de juros de 54% ao ano.
Os cartões começaram a ser oferecidos aos servidores depois que o IMPCG decidiu aplicar R$ 3,7 milhões no Master. Mas, por conta da reação de servidores e denúncias no Correio do Estado, somente R$ 1,2 milhão acabou sendo aplicado. Por conta da liquidação do Master, o dinheiro está retido.O decreto que privilegiava o Credcesta acabou sendo revogado.
E este dinheiro, que é dos servidores e que rendia juros de 0,87% ao mês ao IMPCG, passou a ser oferecido aos próprios servidores com taxa de jutos de 4,5% ao mês.
Por conta dos altos juros, dezenas de servidores recorreram à Justiça para tentar se livrar dos empréstimos, mas a empresa continua funcionando normalmente. Em Campo Grande, o Credcesta tem um escritório de atendimento ao público na Rua 14 de Julho, entre as ruas 26 de Agosto e 7 de Setembro.
Na manhã desta quarta-feira, a loja estava fechada e um comunicado informava que, por conta do feriadão de Carnaval, o atendimento seria retomado somente na quinta-feira, dia 19.
O PROPRIETÁRIO
O atual dono do Pleno (Credcesta) Augusto Lima, deixou a sociedade com Daniel Vorcaro em julho de 2025 e ficou com o banco. Ambos foram presos no âmbito da Operação Compliance Zero, sendo posteriormente liberados sob uso de tornozeleira eletrônica.
Conforme reportagem da Folha de S. Paulo, o Pleno enfrentava dificuldades de liquidez e buscava um investidor para continuar operando. Por determinação do BC, o banco estava proibido de emitir novos CDBs (Certificados de Depósito Bancário) para se financiar.
Segundo as últimas informações disponibilizadas na base do BC, referentes a junho de 2025, o ex-Voiter tinha um patrimônio líquido de R$ 672,6 milhões e um lucro líquido de R$ 169,3 milhões. Na outra ponta, porém, o passivo era de R$ 6,68 bilhões. Dessa dívida, a maior parte é de CDBs , que correspondiam a R$ 5,4 bilhões.
A dívida com CDBs pressiona ainda mais o FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Desse total de R$ 5,4 bilhões, apenas investidores que se enquadrem no limite do fundo , R$ 250 mil, têm direito à devolução dos valores, sem a correção monetária entre a data da liquidação e o pagamento.
Em 18 de novembro, foi anunciada a liquidação do Master, do Master de Investimento, da Master Corretora e do Letsbank. Nos dias 15 e 21 de janeiro, foram liquidados a administradora de fundos Reag e o Will Bank, respectivamente.
O Pleno enfrenta problemas há anos, desde a época em que o nome era Indusval e tinha outros controladores. Voltado ao financiamento de empresas e do agronegócio, o banco passou por várias reestruturações em meio a prejuízos. Em 2019, passou a se chamar Voiter, num plano de transformação digital.
O Master incorporou o Voiter em fevereiro de 2024.E, em julho de 2025, o BC aprovou a transferência do Voiter para Lima, que mudou o nome da instituição para Pleno, no momento em que analisava a venda do Master para o BRB (Banco Regional de Brasília), o banco estatal de Brasília. Quatro meses depois, o banqueiro foi preso.
A trajetória de Augusto Lima é marcada por uma rápida ascensão. Em menos de uma década, a partir da criação do Credcesta, em 2018, saiu da Bahia, ganhou espaço na Faria Lima, expandiu o negócio do consignado por 24 estados e 176 municípios.
TEIAS OPACAS
Segundo reconstituição da Folha, com base em documentos e relato de pessoas próximas ao empresário, a trilha que colocou Lima no centro do maior escândalo financeiro em décadas inclui estruturas empresariais opacas, teias societárias complexas e costuras políticas.
Nesse caminho, Lima utilizou muitos fundos em seus negócios e criou fortes laços com a Reag, instituição de fundos de investimento que foi alvo em agosto de 2025 da Operação Carbono Oculto, por suspeita de operar para o PCC, e foi liquidada pelo Banco Central.
A PKL One, empresa dona do Credcesta, recebeu aumento de capital de um fundo chamado Reag 34, depois rebatizado de Diamond. Esse fundo detém o controle da empresa e está sob a gestão da WNT, que foi citada na segunda fase da operação Compliance Zero.
Nascido em uma família de classe média de Salvador, Guga, como é chamado entre amigos, cursou economia em uma universidade particular. Trabalhou com venda de abadás até entrar no setor financeiro com a Terra Firme da Bahia, fundada em 2001 para atuar como correspondente de instituições financeiras.
Nos anos seguintes, fundou outras empresas neste segmento e ajudou a criar as associações de servidores Asteba e Asseba, que prestavam serviços, inclusive financeiros, aos funcionários públicos.