Sábado, 18 de Novembro de 2017

Agir com autoridade é uma demonstração de amor

23 MAI 2010Por 11h:02
SCHEILA CANTO

O grande desafio dos pais, hoje, com relação à educação, é conseguir o equilíbrio entre ser firme sem ser autoritário. Ou seja, educar com afetividade, sem negligenciar ou partir para a violência física ou psicológica. Vários estudos revelam que proporcionar uma educação mais liberal para prevenir os ‘traumas’ de uma educação repressora demais pode não surtir o efeito esperado. Também é explicado que crescer sem orientação e sem limites faz a criança sentir-se só e desconectada de seus próprios familiares. Então fica a questão: qual é a maneira certa de educar?

O fio da meada é longo, mas tem início na estrutura familiar e na boa convivência entre o casal. Porém, o grande problema detectado pela ONG Criança Feliz – que há 18 anos trabalha com ações voltadas à prevenção da violência doméstica, integração familiar e resgate da afetividade por meio das brincadeiras –  é a pouca convivência das mães com os filhos. “Hoje, com o mundo globalizado, há uma necessidade maior de as mulheres estarem inseridas no mercado de trabalho ou em busca de qualificação; em contrapartida, acompanham pouco o dia a dia da criança, deixando lacunas de entendimento em ambas as partes”, exemplifica Fernando Reganato, coordenador da ONG no Estado e preletor da palestra “Violência e afetividade”.
Segundo Reganato, há várias formas de violência: física, psicológica e subliminar, ou seja, aquela que é inconsciente, sem intenção. Assim, a violência em suas diversas formas pode ser constatada desde o momento em que a criança cobra atenção e as mães, desacostumadas à demanda, pagam com impaciência e, na maioria das vezes, acabam recorrendo a castigos, gritos e palmadas.

Sem querer colocar toda a culpa sobre os ombros da mãe, vale ressaltar que histórica e culturalmente cabe a ela a educação dos filhos. Assim, sua entrada no mercado de trabalho afastou-a do contato direto com o filho, dificultando a tomada das rédeas da educação. “Como elas passam a maior parte do tempo fora de casa, sentem culpa por isso e acabam tendo medo de perder o amor do filho ao dizer ‘não’. Os limites, então, passam a ser encarados como proibições e vistos negativamente”, exemplifica Reganato.

Segundo o palestrante, o grande problema da violência contra a criança atualmente é a terceirização da educação. “Hoje, os filhos são ‘educados’ pela tevê, pelo videogame ou pelo computador. Passam horas a fio conectados a programações que despertam, precocemente, a sexualidade e a banalização da violência, como os jogos de GTA, que são agressivos e erotizantes, portanto, perigosos na medida em que estimulam a produção de adrenalina antes do tempo”, enumera, acrescentando que esta adrenalina acumulada na criança ou adolescente será revertida em forma de rebeldia contra pais, avós, tias, babás, professores, etc. 

Reganato ressalta que carinho, afetividade e respeito se dão por meio do contato físico com os filhos. E, mesmo que passem poucas horas com eles, se elas são usadas para educar e brincar, eles serão modelados de acordo com os valores passados. “Por isso, nosso trabalho, além de estimular a autoridade dos pais e não o autoritarismo, também incentiva a brincadeira com jogos didáticos e pedagógicos, pois a maioria deles promove a integração da família”, defende.

Vale a pena se esforçar
O cansaço é o principal rival dos filhos, mas, de acordo com psicólogos, é fundamental dedicar alguns minutos diários exclusivamente à prole. Se eles forem pequenos, dedique-se às brincadeiras. “Hoje, não se brinca, e sim tem o brinquedo. O brincar é fundamental na infância, pois significa criar vínculo, trabalhar o lúdico e a imaginação. É um treinamento para a vida adulta”, orienta Ana Elizabete Arruda, psicóloga de crianças e adolescentes, da Unipsico (União dos Psicólogos de Campo Grande).

Limite é fundamental
Não restam dúvidas de que os limites são fundamentais para que a criança possa conviver em sociedade de forma pacífica e produtiva. Segundo Ana, os principais problemas sociais e relacionais a que assistimos hoje são decorrentes da ausência de limites dada pela família e reforçada pela sociedade, o que torna as pessoas desumanas: “Elas não se importam com os sentimentos do outro, não respeitam o outro, estão o tempo todo interessadas na satisfação de seus próprios desejos e necessidades”, acrescenta a psicóloga.
Para Ana, o diálogo ajuda a delimitar a hierarquia entre pais e filhos, valoriza a relação e trabalha o respeito. A falta de limites resulta em crianças e jovens agressivos e onipotentes – pois acham que podem fazer tudo – e todo esse comportamento certamente irá refletir na vida adulta, avalia Ana Elizabete.

Reflexo
Reganato aponta a violência como um ciclo vicioso que surge como resposta à má educação ou à falta dela, à ausência de diálogo, de amor, de carinho e de afetividade dos pais. “Portanto, fica o alerta para que os pais procurem participar mais do dia a dia de seus filhos, resgatem valores antigos e de grande efeito, como a bênção, reafirme o amor diariamente com palavras como ‘eu te amo’; atitudes como estas têm grande impacto na formação da personalidade e da autoestima da criança”, finaliza Reganato. 

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