Sábado, 18 de Novembro de 2017

A polêmica do filósofo que acredita em Marx e Deus

15 AGO 2010Por 06h:54
Laura Greenhalgh, AE

Terry Eagleton não aceita provocações de Salman Rushdie. Prefere manter o biólogo Richard Dawkins como o alvo principal de seus ataques a um grupo de escritores que não só professa o ateísmo, como insiste em afirmar que Deus é uma ideia sem sentido. A pontaria ficou evidente quando o filósofo britânico, mais conhecido como crítico cultural e professor de teoria literária, apresentou-se na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), tratando de fé e religião.
“Dawkins é um racionalista fora de moda. Imagina que o Deus do século 17 é o mesmo Deus de Abraão. Confunde tudo, pensa que crer em Deus é algo tão questionável quanto crer em extraterrestres”. Na véspera, Rushdie revelou ao público da Flip seu incômodo com as críticas que Eagleton normalmente lhe faz, nas quais afirma que o autor de “Versos satânicos”, com seu discurso contra o islamismo radical, deu força ao neoconservadorismo do ex-presidente dos EUA George W. Bush. Rushdie chegou a insinuar que Eagleton deveria repetir isso, cara a cara.
Eagleton gosta de uma boa polêmica, temperada com doses de humor britânico. Não é simples entendê-lo. Nascido numa família de trabalhadores irlandeses, teve formação religiosa conservadora, mas com o passar do tempo tornou-se estudioso do marxismo. Pois não parece ter perdido a fé nem em Deus, nem em Marx. Diz que continua marxista “até para irritar os outros”. E sempre que pode investe contra escritores como Dawkins (autor de “Deus – Um delírio”) ou Christopher Hitchens (“Deus não é grande”), sendo que, em relação a este último, parece ter mais paciência. “Hitchens é objetivo, não fica inventando histórias como Dawkins. Diz que as religiões são nojentas, quem quiser que aceite isso ou não”.
Se pudessem ser sintetizadas em poucas linhas, as posições de Eagleton afirmariam ser um erro separar fé e razão, que as religiões são fenômenos fortes e até necessários ao mundo, que é perda de tempo ficar discutindo se Deus existe e que a modernidade secular, laica e relativista está dividindo o mundo entre bárbaros e civilizados. “Critico Rushdie porque ele, ao atacar os radicais islâmicos, alimenta uma espécie de islamofobia perigosa. A civilização ocidental não deveria continuar a crer que bárbaros são os outros. O Ocidente também fomentou muita barbárie”.
Dois novos livros de Eagleton estão chegando ao Brasil: “O problema dos desconhecidos” (ed. Record), em que faz um estudo sobre ética, e “Jesus Cristo – Os Evangelhos” (ed. Zahar), parte de uma coleção sobre vultos revolucionários. Seu grande sucesso editorial, no entanto, é um livro escrito há três décadas, “Teoria literária – uma introdução”, obra de referência ainda hoje.
Eagleton, que já foi professor das mais prestigiadas universidades do mundo, como Oxford, Cambridge, Manchester e Yale, hoje reduziu o ritmo das aulas e prefere escrever, quase que compulsivamente, de sua casa em Dublin. Ou viaja pelo mundo para palestras e debates. Na mala sempre leva um volume de “Em busca do tempo perdido”, de Proust: “Reler sua obra é uma experiência superior, quase delirante”.

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