Quinta, 23 de Novembro de 2017

A ótica do voto

21 JUN 2010Por 08h:12
Este artigo tem como tentativa a colocação da ótica do povo com relação ao voto. É certo que uma reduzida parcela dos eleitores tem para si a visão do voto como um instrumento de aperfeiçoamento do sistema democrático e, apesar de todas as imperfeições, faz uso dele como tal. Essa parcela tem um conhecimento do processo político e não restringe o seu entendimento ou participação apenas aos acontecimentos da fase eleitoral. Há uma postura ideológica e partidária.

Parte considerável da população brasileira tem uma visão pouco compreensiva do voto e sua finalidade, ou seja, o que pode representar o voto depositado nas urnas. Esses eleitores, em geral, tem a política como “algo que não lhes competem”, levam o seu voto movidos exclusivamente pela obrigatoriedade, que não existe, e necessidade que tem o registro do seu voto para a manutenção do seu emprego ou para outras aspirações ao mercado de trabalho. Essa situação tem a sua raiz na ineficácia dos partidos políticos, que não conseguem motivá-los através de suas propostas já que são dominados por pequenos grupos em que o interesse próprio é o seu mote. Esta situação é que leva o povo, quase na sua totalidade, a manter uma distância do processo político e comprometer sem dúvida a instituição política no desenvolvimento de suas reais ações e finalidades.

Outro grupo da população é aquele que tem a sua participação de maneira momentânea, ou seja, somente são despertados para o processo político no período eleitoral, tendo ou não crença na instituição política. A ótica do voto nesse grupo é motivada pelos acontecimentos econômicos e/ou sociais ou pelo poder de barganha que o momento permite dispor perante os candidatos. A sua participação não tem vínculo com a questão de formação do pensamento nacional (vontade geral), está restrita a uma questão de pura individualidade, independente da sigla ou proposta partidária, tendo em vista resultados de curto prazo.

Finalmente, um grupo da população que, apesar do certo distanciamento que mantém do processo político, vê-se obrigado a votar e trás consigo motivos, mesmo que sejam mínimos ou desprovidos de entendimento, que o levam a ter uma ótica do voto muito próxima de uma postura ideológico-partidária. Apesar do baixo grau de entendimento ou mesmo prejudicadas pela falta de informações, frações dessa parcela da população dispõe de algum conhecimento dos acontecimentos do processo político que as identificam com partidos ou propostas, mesmo que de forma simbólica, mas ocorrendo de qualquer maneira, a visão do voto como expressão da vontade, esta, enquadrada dentro dos parâmetros do pensamento nacional, da vontade geral.

A visão do voto tem tomado direcionamento com forte motivação na construção do bem-estar social voltado ao consumo. Esta vertente é muito clara e os resultados das últimas pesquisas sobre o comportamento do povo brasileiro em relação às medidas e propostas de atuação de governo, mostram que a maior preocupação está nos tributos, os impostos que tornam caros os produtos de consumo. Este é o alvo da maioria dos eleitores nas próximas eleições, o definidor de votos. Quem melhor souber propor e tornar compreensível para a população a sua proposta neste campo da economia receberá, com certeza, uma considerável montanha de votos.

O maior agravante da distorcida visão do voto está na permanência do pensamento do eleitor de que é o Estado o depositário de sua satisfação pessoal na vitória contra grupos contrários e inversamente proporcionais à sua simpatia e desejos de confrontos. Neste caso, ainda motivador de grande parcela dos eleitores, o voto está desprovido de qualquer ótica de postura política, de governo e da vontade geral. A vida do País vai se resumir a breve período pós eleitoral tanto para perdedores como para ganhadores das eleições. Desvincula-se a partir daí para esse grupo, a relação entre o governo e a Nação.

O povo continuará então a ter o Estado como o patrão a ser servido, a ser atendido, com submissão. Pela sua ignorância ou analfabetismo funcional, não compreenderá que o Estado deve ser o seu servidor. Só com a consciência do voto como instrumento da vontade geral é que será possível sairmos desse colonialismo eleitoral e “bestideológico” em que se encontra o Brasil. Apesar de sua fundamental importância à vida do cidadão, nada se fala ou ensina nas escolas brasileiras sobre este vital instrumento de evolução social, o voto.

Raphael Curvo - Jornalista, advogado pela PUC-RIO e pós-graduado pela Cândido Mendes-RJ

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