Sábado, 25 de Novembro de 2017

A grande herança

8 ABR 2010Por 20h:25

Faz alguns dias, neste jornal, em página inteira com uma bela ilustração com a foice e o martelo, emblema do partido comunista, li o longo artigo de um professor universitário de Campo Grande. Ele tecia elogios ao "Manifesto comunista" de Marx e Engels, de 1848. Esse livrinho, sempre reeditado, ainda hoje nos surpreende pela objetividade, racionalidade e clareza de exposição. (Essa clareza, os estudiosos da obra atribuem a Engels, redator do livro. Marx era difícil).

O "Manifesto" foi um marco na história política do mundo. Pela longevidade, como livro político, só perde para "O Príncipe" de Machiavel, de 1532, mas se iguala em valor histórico, ambos nos propondo os caminhos para a conquista do poder. A diferença é que Machiavel era mais realista, chegando ao cinismo em suas proposições, decorrente de sua longa experiência política e governamental. Marx, ao contrário, tinha limitada experiência na práxis política, nunca tendo exercido uma função executiva, mas era um pensador idealista e de lúcida percepção do momento histórico em que vivia. Por essa lucidez Marx nos deixou duas coordenadas que nos guiariam para sempre. A primeira é a importância do fator econômico na explicação da história do homem. A segunda foi a sua muito crua denúncia das injustiças sociais que, de certo modo, até hoje persistem.

Deixo claro que, por todos os motivos, me parecem louváveis as denúncias do "Manifesto", assim como vejo como idealista o movimento comunista que lutou pela aplicação do marxismo. Mas, admitindo a verdade da denúncia e o idealismo do movimento, vejo também com clareza os efeitos desastrosos da aplicação daquela doutrina. Já escrevi uma vez e não me acanha repetir que a doutrina comunista de Marx foi e ainda é uma solução errada para um problema verdadeiro que ainda existe – as injustiças sociais. Essa discussão pediria um palco mais amplo que uma crônica de jornal. Mas, como estou certo de que para assunto tão debatido não há mais nada a dizer, vou ser resumidamente repetitivo.

Marx, por uma intuição tipo bergsoniana que se sobrepõe ao raciocínio e à pesquisa, detectou a causa das injustiças sociais no direito de propriedade. Suprimi-lo era o caminho mais sábio e mais curto. Esse caminho, entretanto, era mais curto do que sábio, pois "ter" é o desejo mais profundo da natureza humana e o egoísmo que o motiva é também o móvel do instinto de sobrevivência; garantia da preservação da espécie. Marx não estudou psicologia e, infelizmente, não leu Freud que publicou seu primeiro livro no ano de sua morte. Se lesse talvez levasse em conta a natureza estrutural do egoísmo humano e do seu desejo de ter. Uma criança que ainda não fala é capaz de defender o "seu" brinquedo com agressivas manifestações de gestos e choro. Sem falar ela está dizendo "é meu". Depois falará na "sua" roupa, "sua" casa, "seu" dinheiro, sempre egoisticamente como manda a santa madre natureza. Em função desse egoísmo estrutural, Freud chamou a criança de um perverso polimorfo, contrariando a doutrina oficial de que o homem nasce bom e a sociedade o perverte. Doutrina que Marx também tinha para si, supondo que ao negar o direito de propriedade o egoísmo e a maldade seriam sanados.

A história nos mostrou o contrário, pois a doutrina de Marx, ele mesmo previu, só seria implantada por uma revolução que, historicamente, sempre foi cruel, sangrenta e a sua manutenção sempre só foi possível com a opressão e supressão das liberdades individuais. Assim foi na infeliz Rússia, na muito culta Alemanha e ainda é na pobre Cuba que, com frieza que assombra o mundo, está assistindo o suicídio de seus dissidentes . O egoísmo humano manifesto pelo desejo de ter não pode ser extinto por decreto. Ele deve ser controlado pela educação, pela convivência humana que nos ensina a dividir e, evidentemente, pela ação dos governos, através das leis. Essa é a grande lição da democracia: preservar o nosso prazer de ter, desde que ele seja fruto do trabalho e talentos próprios e não venha contrariar o direito dos outros. Além de que aos mal dotados ou mal servidos devem ser garantida a igualdade de oportunidades que hoje se tenta fazer pela educação.

A ideologia marxista foi testada por mais de meio século em mais da metade do mundo. Ruiu por si mesma a partir da queda do muro de Berlim e exaustivamente os seus absurdos e desacertos foram mostrados. Se o objetivo era o combate às injustiças sociais, uma forma simples de avaliação seria a comparação do padrão de vida dos operários do mundo comunista, por exemplo, com o padrão norte- americano, país que sempre viveu a "selvageria" do capitalismo. Em função dessa amostragem a discussão dessa doutrina tornou-se obsoleta e desprezível. Mas existem os cegos que não querem ver, os morto-vivos de Cuba, os Chaves desta infeliz América Latina e, entre nós, os membros da guerrilha lulista. Estes já estão longe de Marx, pois se abraçaram a Machiavel centrados na cínica convicção de que a conquista do poder está acima da ética e sentimentos de cidadania – os fins justificam os meios – esse é o lema. Os meios são o dinheiro mensaleiro e corruptor tirado dos cofres públicos e estatais, sem nenhum escrúpulo, através de ONGs fajutas, fundos de pensão e superfaturamento de obras.

O voto, como manifestação de vontade, perdeu sua significação política, tornando-se uma mercadoria com preços definidos. Os partidos e políticos passaram a ser comprados em abertas concorrências. Aqui mesmo entre nós, nesse pobre Mato Grosso do Sul, estamos vendo políticos virando as costas ao seu eleitorado tradicional pelo dinheiro fartamente oferecido. Esse dinheiro sujo derrotará Dilma Roussef e a insensibilidade moral ficará como símbolo e grande herança maldita do governo Lula.

Abílio Leite de Barros, albcg@terra.com.br

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