Sexta, 24 de Novembro de 2017

A geração do real

1 ABR 2010Por THIAGO ANDRADE20h:24

Moedas e cédulas fazem parte do cotidiano de toda a população. No decorrer do dia, elas são utilizadas inúmeras vezes. Mas poucos sabem o que foi necessário para que se chegasse ao que existe hoje. O Plano Real, que comemorou 16 anos em fevereiro de 2010, é um marco na história monetária do Brasil. Contudo, há uma geração de jovens, na faixa etária dos 20 anos, que teve pouco – ou nenhum – contato com os planos monetários anteriores e, hoje, muitas moedas já foram esquecidas pela maioria.

A estudante Marília Monreal, de 20 anos, não esconde a pouca convivência que teve com o cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado e toda a infinidade de moedas que circularam no Brasil. "São moedas tão distantes quanto as estrangeiras. Vi algumas notas e meu contato não passou disso", afirma.

Marília acredita que há esquecimento em relação às moedas que antecederam ao real em todas as instituições. "Nas escolas, fala-se muito pouco e a referência que existe está ligada às novelas antigas, no máximo", reclama. Ela ainda aponta que não se pode esquecer a íntima relação do dinheiro com a memória e a história do País. "Esquecê-las é esquecer uma parte importante do passado", frisa a estudante.

Wellington Furtado, 22 anos, funcionário da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, vê na mudança do cruzeiro real para o real um símbolo da consolidação da democracia brasileira. "O Plano Real veio para resolver problemas econômicos que persistiam no Brasil, mas ele também chegou em uma hora importante, rompendo definitivamente a ditadura", defende.

Em virtude da faixa etária, ele também teve pouco contato com as moedas anteriores. "Nasci no período entre o cruzado e o cruzado novo, mas nunca usei esse dinheiro comercialmente. Em casa, meus pais têm uma pequena coleção de notas antigas e eu tenho uma relação emocional bastante forte com elas", justifica o funcionário público, que também é dono de uma pequena coleção de moedas e notas comemorativas de real. "A coleção dos meus pais tem algo legal, pois simboliza as lembranças do passado. Agora, a minha coleção representa o oposto", esclarece.

Tainá Jara, acadêmica de jornalismo, de 19 anos, conta que, embora tenha tido pouco contato com as moedas antigas, acredita que o real trouxe grandes benefícios à população brasileira. "Não apenas econômicos, mas estéticos. As notas ficaram mais leves e bonitas. Achei legal terem trocado as figuras históricas por animais conhecidos da nossa fauna", elogia. Porém, a acadêmica não esconde sua curiosidade e critica a falta de um espaço no qual a história das moedas brasileiras seja contada. "Não conheço nenhum lugar que faça isso em Campo Grande", pontua.

 

História

"Certa vez, nos anos 80, vendi um apartamento que tinha em Londrina para comprar outro em Curitiba. Em razão de uma grande oscilação cambial no fim de semana, o preço do apartamento subiu tanto, que fiquei impossibilitado de comprá-lo", lembra o professor universitário César Augusto Benevides. Segundo ele, o clima de instabilidade provocado pela flutuação marcou culturalmente o Brasil.

"Somente com o real conseguiu-se modificar isso e, claro, houve mudanças culturais. Os jovens precisam ter contato com esse passado para entender como o País chegou até aqui", defende o professor.

Na opinião de Benevides, as mudanças de moedas que aconteceram no Brasil demonstraram uma condição que precisa ser estudada. "Na crise de 1929, o dólar se manteve, assim como na Alemanha, o marco permaneceu após a guerra. Em 60 anos, trocamos nossa moeda pelo menos sete vezes. Isso, com certeza, afetou nossa cultura", finaliza Benevides.

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