Sexta, 17 de Novembro de 2017

A decadência do ministério pastoral

23 ABR 2010Por 07h:13
Esta semana as páginas policiais dos jornais de Campo Grande estamparam a notícia de uma pessoa presa após intensa perseguição policial na cidade. A cena foi descrita como “cinematográfica” pela mídia, pois envolveu alta velocidade, várias viaturas e tiros durante a madrugada.
 Poderia ser mais uma notícia comum dessas que, vez ou outra, os jornais trazem sobre a violência e a criminalidade nas grandes cidades. Porém, o que chamou a atenção de muitos leitores foi o fato de que o foragido, após ser preso, mesmo admitindo ter usado drogas, dirigir de forma irresponsável e provocar danos contra o patrimônio público, declarou-se “pastor”. De fato, na sua página de relacionamentos do Orkut há várias fotografias do mesmo pregando em comunidades religiosas diversas.

 Algumas semanas atrás a Polícia Rodoviária Federal já havia apreendido em Miranda sete fuzis 5.56 de fabricação norte-americana escondidos no fundo falso de um veículo conduzido por dois pastores da “Igreja Mundial do Poder de Deus”. Apurou-se, posteriormente, que os fuzis estavam sendo levados para traficantes do Rio de Janeiro. Na mesma semana a polícia apreendeu na capital um terceiro homem, também identificado como “pastor” e que armazenava em sua residência armas destinadas ao tráfico.

 Tais notícias envergonham os pastores sérios que desempenham seu ministério de apoio espiritual e pregação do Evangelho e apontam para a banalização do termo “pastor” e seu uso indevido por qualquer pessoa que pretenda se escudar atrás de máscaras religiosas.
 Foi-se o tempo em que a palavra “pastor” impunha respeito na sociedade, mesmo perante pessoas que não professem a fé evangélica. No passado, as igrejas eram muito sérias e criteriosas e não admitiam que o termo “pastor” fosse apropriado indevidamente por qualquer pessoa que soubesse decorar alguns versículos bíblicos ou que demonstrasse boa oratória. Os bons pastores do passado, ao invés de perder horas no computador, gastavam boa parte do seu tempo visitando a congregação ou levando a solidariedade na forma de orações e apoio em hospitais. Naqueles tempos os hospitais nem sequer exigiam a carteira de identificação pastoral, pois os pastores eram reconhecidos como homens respeitáveis onde quer que chegassem. Não eram anjos nem seres humanos perfeitos, mas se esforçavam por levar uma vida honesta, sóbria e que honrasse o Evangelho.

 De alguns anos para cá proliferaram as igrejas pentecostais e neopentecostais que surgem da noite para o dia em pequenos salões tais como microempresas de fundo de quintal adotando os nomes mais estranhos possíveis e pirateando o evangelho. Hoje em dia qualquer grupinho consegue registrar em cartório a sua “igreja” e sair em busca de benefícios fiscais em troca da promessa de milagres e prosperidade. Nessas igrejolas qualquer pessoa que, minimamente saiba ler e falar em público, já se autointitula “pastor” ou até mesmo “bispo”. Tais facilidades depõem contra o trabalho sério desenvolvido há anos (na verdade desde o século XIX) por Igrejas sólidas, tradicionais e respeitáveis pelo mundo afora.

 Um grande favor que a imprensa poderia prestar à sociedade civil seria o de mostrar que há Igrejas sérias, merecedoras de um “I” maiúsculo e “igrejas” piratas, pastores que fazem jus ao título e pastores que se aproveitam do título, tal como há bons e maus padres.
 Neste domingo, 25 de abril, a tradição anglicana comemora o “Dia do Pastor”, pois é a data conhecida como “Domingo do Bom Pastor”, no qual se lê o discurso de Jesus registrado no Evangelho de João, capítulo 10: “Eu sou o bom Pastor; os mercenários e ladrões vêem somente para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham plenitude de vida”.

 Essas palavras de Jesus devem servir como critério para toda a sociedade: como é o seu “pastor” ou o seu “padre”? Ele é um promotor da paz e da solidariedade ou um explorador, fomentador de discórdia e enganador do povo? Ele dignifica ou desonra seu título eclesiástico?
 A sociedade precisa de “bons pastores”, humildes, sinceros e humanos. Esses, certamente não são anjos de perfeição, mas pelo menos são pessoas que tentam honrar o Evangelho de Jesus Cristo.

Rev. Carlos Eduardo Calvani, Clérigo da Igreja Anglicana em Campo Grande

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