Quinta, 23 de Novembro de 2017

Falando de arquitetura e urbanismo

A arquitetura e a “pegada ecológica”

5 FEV 2010Por RUBENS FERNANDO DE CAMILLO00h:48
É bastante curioso realizar o teste da “pegada ecológica” do WWF – Brasil (www.wwf.org.br). Segundo a organização, voltada para “a conservação da natureza, harmonizando a atividade humana com a conservação da biodiversidade e promoção do uso racional dos recursos naturais em benefício dos cidadãos de hoje e das futuras gerações”, nós deixamos “rastros” no meio ambiente, impactos no planeta decorrentes de nosso estilo de vida. A WWF nos informa que, pelo simples fato de habitarmos cidades acima de 500.000 habitantes, já somos consumidores de um planeta. Explicando melhor, se todas as pessoas do mundo fossem iguais à gente, a terra estaria exaurida. Isso nos coloca diante de um inquietante dilema: se hoje considerarmos como condição essencial para a vida civilizada morar em uma casa (alugada ou própria), com um mínimo de acesso às conquistas da vida moderna, como geladeira, TV e computador, e supondo que o leitor seja um cidadão consciente e equilibrado, do tipo que procura usar o mínimo o carro, privilegia o transporte coletivo ou anda a pé ou bicicleta, ainda assim estaria gastando ao redor de dois planetas para manter seu padrão de vida, se todos os habitantes do mundo tivessem a mesma condição. A questão ambiental está na ordem do dia. Como se sabe, os debates sobre como estacionar a tendência de aquecimento global supõem que todos os países precisam reduzir suas emissões. Como Brasil, China, Índia estão chegando agora ao clube dos ricos, ou pelo menos aumentando significativamente suas classes médias, já foi dito que, impondo limites a todos, equivale-se à situação em que foi realizado um jantar, mas para os emergentes ficou apenas o cafezinho e a conta. Obviamente, ninguém aceita entraves para seu desenvolvimento. Todas as nações, à medida que progridem, querem acessar aquilo que a vida moderna tem de melhor. No campo da construção civil e da arquitetura o problema não é diferente. Construir uma casa, ou outro edifício qualquer, pode impactar o meio ambiente de várias formas. Sintonizadas com o apelo ambientalista atual, várias indústrias do setor vêm desenvolvendo produtos que levam em conta a necessidade de se preservar os recursos naturais. O problema é que, como alguns especialistas vêm alertando, não é possível que o impacto seja zero, muito menos no setor de construção, seja na esfera pública ou privada. O que leva à questão do tipo de consumo que queremos. O que construímos tem relação direta com nosso estilo de vida. Mas, o que seria o consumo consciente de arquitetura? A resposta pode variar muito de grupo para grupo, dependendo de sua condição econômica e posição na pirâmide social. Uma resposta seria prevenir todo e qualquer desperdício, procurando realizar uma construção bem gerenciada e com projetos completos e compatibilizados entre si (arquitetura, elétrica, hidráulica e estrutura). No plano urbanístico, com o fim da ocupação desordenada do solo, poderiam ser evitadas inúmeras catástrofes. Com seus problemas recorrentes, quantos planetas a cidade de São Paulo vem consumindo? Alguém faz ideia dos prejuízos que trazem as enchentes, ambientais e materiais? É próprio das democracias a garantia das liberdades, não somente a de expressão, ir e vir, mas também a econômica, a liberdade de produzir. Se existem recursos financeiros, todos são livres para realizar qualquer coisa. Mas, que fazer quando os limites para muitos empreendimentos em todo o mundo não se devem a razões de natureza ideológica, mas à crescente percepção da incapacidade da terra em prover recursos para tal? Sempre será possível dizer que o mercado pode se encarregar de impedir que os recursos escassos da natureza sejam esgotados; noutras palavras, quem quiser consumir o planeta pagará muito caro por isso, além de conviver com o problema moral decorrente. Mas isso não exclui nossa vigilância permanente, no sentido de se evitar que os danos se tornem irreversíveis. O assunto, naturalmente, não se esgota aqui. Podemos argumentar que os parâmetros da WWF estão exagerados. Pode ser, mas no campo da arquitetura e do planejamento servem no mínimo para que continuemos, coletivamente, a implantar políticas adequadas de desenvolvimento urbano e regional e, por outro lado, para uma reflexão honesta de como expressar nossa individualidade através da arquitetura.

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