Sábado, 18 de Novembro de 2017

A alma do Brasil que ficou no Paraguai

2 FEV 2010Por MARISA BITTAR, AMARÍLIO FERREIRA JR.21h:25
A Cidade Morena, que segundo Paulo Coelho Machado, em 1910 era uma “vila caipira” perdida nas brenhas mais profundas dos sertões brasileiros, celebrou, no seu 7º Festival de Cinema, os 100 anos de existência da maravilhosa arte inventada pelos irmãos Lumière. Entre as sessões de destaque do fest iva l foi projetado o primeiro filme realizado no Estado de Mato Grosso uno: “Alma do Brasil”. Trata-se de uma película rodada em 1931, com direção de Líbero Luxardo, que interpreta o coronel Carlos Morais Camisão e está baseado no livro homônimo de Afonso de Taunay, um dos grandes historiadores da Guerra da Trípl ice A l ia nça (1865-1870). O filme teve como cenário o próprio local das batalhas que se travaram ente os dois principais exércitos beligerantes, brasileiro e paraguaio, no episódio conhecido como Retirada da Laguna (1867), isto é, a desocupação de tropas brasileiras que haviam invadido a fazenda de Solano Lopez no Paraguai. O roteiro está baseado numa abordagem patriótica da mais trágica intervenção militar protagonizada pelo Brasil no contexto latino-americano. A sua estrutura narrativa apresenta-se na forma de um tríptico, no qual tanto o início como o fim são imagens documentais da época em que o alto comando da 9ª Região Militar, sediado em Campo Grande, era chefiado pelo general Bertoldo Klinger. Na primeira parte, tropas do Exército, que forneceram infraestrutura material para a realização da película, aparecem percorrendo os mesmos caminhos trilhados pelos brasileiros durante a Retirada da Laguna. Nesse momento, os destaques são as cenas em que o general Klinger e o seu comando visitam os túmulos do coronel Camisão e de José Francisco Lopes, o Guia Lopes, na região de Jardim. Quanto ao desfecho, o diretor fixou a sua câmara nas tropas da 9ª Região Militar em posição de marcha unida pronta para o combate. Apesar de ser um filme mudo, os soldados cantavam, possivelmente, um hino de louvor à pátria brasileira. Já o pa i nel cent ra l que compõe “A lma do Brasi l ” se const itu i propriamente na reconstituição ficcional dos principais fatos ocorridos durante a Retirada da Laguna. O cineasta estabeleceu como fio condutor da narrativa uma interpretação fundada na luta travada entre o bem (brasileiros) e o mal (paraguaios), ou seja, tomou como base um roteiro no qual os brasileiros são vítimas indefesas das crueldades perpretadas pelas tropas de Solano López. O ápice da dramaturgia cinematográfica ocorre quando os paraguaios cercam os comandados do coronel Camisão e ateiam fogo na vegetação que cobria os cerrados dos Campos de Vacaria. As cenas que se seguem mostram os brasileiros, extenuados por fome e doenças, sendo perseguidos pelos paraguaios que matam os acometidos pela cólera e uma mãe que tem o seu pequeno filho abandonado numa choupana prestes a ser devorada pelo fogo. O filme suscita questões tanto do pretérito quanto do presente: o general Klinger, quando colocou recursos materiais do Exército na produção de um filme ufanista sobre os feitos brasileiros no conflito militar contra o Paraguai estaria reforçando os mitos da nacionalidade e, ao mesmo tempo, criando as condições políticas para desempenhar o papel que protagonizou durante a chamada Revolução paulista de 1932? Que motivos levam o Brasil, até hoje, 140 anos após o término do conflito, a manter em segredo os arquivos concernentes à Guerra da Tríplice Aliança? Teriam sido cometidos crimes de guerra por parte das tropas brasi leiras? Seriam, a i nda, problemas pendentes com relação às fronteiras existentes entre os dois países? Responder tais perguntas ajudaria a compreender o caráter da intervenção militar brasileira no Paraguai e também uma das páginas mais significativas da história de Mato Grosso do Sul. A primeira exibição do filme terminou com aplausos da plateia. Teriam expressado a saudação pela merecida comemoração dos 100 anos de cinema em Campo Grande? Ou estariam concordando com a versão do cineasta e exprimindo a compreensão de história ensinada nos bancos escolares sobre os episódios dessa guerra na qual o Brasil aparece como país agredido em sua soberania e, depois, como vitorioso? De todo modo, a dúvida sobre a intenção dos aplausos traduz a ambiguidade das nossas relações com a nação guarani: de um lado, a sua cultura está viva em nosso cotidiano; de outro, nos agrada demonstrar um sentimento de nação superior. Poucas vezes nos lembramos da verdade registrada na célebre canção de Paulo Simões e Almir Sáter: “Mato Grosso espera, esquecer quisera o som dos fuzis; se não fosse a guerra, quem sabe hoje era um outro país”.

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