Quarta, 22 de Novembro de 2017

Falando de arquiterura e urbanismo

2010 - Arquitetura com responsabilidade

22 JAN 2010Por BOSCO DELVIZIO, ARQUITETO06h:45
Entramos em mais um ano novo – o último da primeira década do século XXI– e as velhas preocupações relacionadas aos graves problemas ambientais continuam. Poluição do ar, escassez e qualidade da água, consumo de energia, mudanças climáticas são alguns dos quais assolam o planeta em que vivemos. O noticiário nacional de final de ano repleto de inundações, ondas de calor, lixos nas galerias de águas pluviais, dão conta que nossas cidades já estão sentindo na própria pele. Diante disso, nada mais apropriado do que nesse primeiro artigo do ano tratarmos da interface do assunto e o trabalho do arquiteto. Sabemos que soluções existem, porém dependem de todos os setores de nossa sociedade e envolvem práticas públicas com muito planejamento, vontade política, fiscalização e, fundamentalmente, a participação social ativa de cada cidadão. Aí se inclui o trabalho do arquiteto responsável, que preocupado e sintonizado com os problemas ambientais, contribui para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Um dos nossos grandes desafios atuais, diferentemente de desenvolvermos arquitetura “ecológica”, “bioclimática”, “sustentável” ou enquadrada em outras especializações de pouca clareza conceitual, é assumir por inteiro nossas habilidades para a produção de boa arquitetura, integral, que nossa formação acadêmica e profissional habilita. Como? Bem, primeiro é necessário desmistificar para aqueles que nos contratam que projeto arquitetônico ambientalmente correto é assunto para especialistas, ou próprio de uma linguagem para atender um segmento de mercado. Ora, arquitetura ecológica, sustentável, ou simplesmente a velha e boa arquitetura – como bem desejamos denominar - é obrigação diária nas lides do arquiteto, desvinculada de qualquer modismo e correlacionada com o local, com sua geografia, ecossistema, cultura, história e deve contribuir e melhorar sempre o ambiente onde será inserida. Claro que, em face da crescente escassez de recursos naturais renováveis, essa consciência tem se acentuado, porém as exigências ambientais, de ontem e as atuais, nunca deixaram de ser importantes para um bom projeto arquitetônico e para um arquiteto consciente de suas responsabilidades com o meio ambiente. Vale lembrar que nossa formação reúne conhecimentos multidisciplinares como urbanismo, paisagismo, conforto ambiental, saneamento, sociologia, antropologia. Dessa forma, a demanda para resolver problemas cada vez mais complexos, nos exige habilidades para supervisionar ou coordenar atividades em equipe com profissionais de áreas complementares, com conhecimento específico em engenharia, química, eletrônica, psicologia, etc. Não podemos esquecer que esses fundamentos existem desde os primórdios da arquitetura moderna do século passado e fizeram parte do conteúdo para a formação da grande maioria (senão da totalidade) dos arquitetos que hoje produzem no mundo inteiro. Para deixar claro o que queremos dizer, tomemos simplificadamente o exemplo da elaboração de um projeto arquitetônico de uma residência. Cabe indagar, que bom profissional arquiteto desconsideraria exaustivos estudos para escolha do melhor local do terreno para implantação da casa? Que arquiteto ponderado menosprezaria as condicionantes ambientais para controle de sol e ventos desejáveis e indesejáveis; para aproveitamento de aberturas para iluminação natural e exploração de visuais do entorno; para sombreamento com beiras e avarandados, objetivando o máximo de conforto térmico? Que arquiteto consciente ignoraria a possibilidade da aplicação do conceito de eficiência energética para obtenção de energia “limpa”, com instalações de placas fotovoltáicas para aquecimento de água; sistema de saneamento com reaproveitamento de águas servidas para reutilização nas lavagens de pisos ou regas de jardins? Que arquiteto zeloso não reservaria atenção para o atendimento às normas de acessibilidade? Ou à utilização de espécies vegetais originárias locais adequadas para o paisagismo? Resposta a estas e outras indagações não encontraremos em obras de projetos concebidos puramente por intuição ou “achismos”, para atender modismos ou imposição mercadológica. A boa arquitetura é fruto de investigações, calcada em profunda reflexão na integração homem e natureza, com preocupação de menos impactar ou alterar o meio ambiente e o máximo de consciência do trabalho bem feito. O bem fazer arquitetura implica, portanto, em muita responsabilidade. Que 2010 seja para nós arquitetos o ano da arquitetura com responsabilidade. Feliz ano novo a todos.

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