Domingo, 19 de Novembro de 2017

100 anos de pura emoção

29 JAN 2010Por 01h:24
De forma improvisada, com lençol branco na parede de um hotel próximo à igreja Santo Antônio, aconteceu há 100 anos a primeira projeção cinematográfica de Campo Grande – o feito será comemorado hoje, às 21h, no 7º Festival de Cinema de Campo Grande, com a exibição do filme “Alma do Brasil”, de Líbero Luxardo, com acompanhamento musical ao vivo do pianista Adriano Magoo. O título do filme exibido perdeu-se no tempo, como grande parte da produção daquela época, que deveria ser obra com gramática cinematográfica ainda incipiente, porém com poder para fascinar amplo público. De lá para cá, diversas salas possibilitaram à população local sonhar, vibrar e emocionar-se. Inicialmente, com imagens; depois, com sons, cores e outros recursos. Do improviso inicial, a cidade assistiu ao surgimento de espaços diferentes para apreciação cinematográfica. De sala com mais de mil lugares aos cinemas nos bairros, de filmes vistos em carros às projeções regulares em paróquias da cidade, até chegar ao endereço que sedia várias salas de exibição, como o cinema multiplex. O Cine Nova Campo Grande, que existiu no bairro do mesmo nome entre 1975 e 1982, é uma das provas de como a apreciação cinematográfica passou por várias fases na Capital. Atualmente, é difícil pensar num cinema de bairro, mas no período em que este surgiu, ver um filme numa sala de projeção era uma das diversões mais populares que existiam. “Lembro que, aos sábados, depois de ouvir no carro de som a atração do dia, a meninada de toda a região da Nova Campo Grande, lá pelas 16h, ia ao cinema. Era um outro período, não somente do bairro, mas de toda a cidade. A gente vinha pouco para o centro”, lembra o gerente de Ouvidoria da Enersul, Valter José Bortoletto, 46 anos. “Assistíamos bons filmes, não eram novos. Havia atraso de alguns meses quando comparado aos outros cinemas. Vi ‘Tubarão’ lá”. A estrutura era a mesma de qualquer outra sala de exibição: bilheteria, cadeira própria para cinema, bombonière. “Era tudo limpo, muito bem cuidado”. Criado pelo militar Ubirajara Ortega e sua esposa Adelina, o cinema promovia sessões especiais com clássicos do “bangue-bangue”. A estrutura do prédio que abrigava o cinema mantém características do período em que esteve em atividade. Por sua vez, a parte interna alterou-se quase totalmente. “Nos mudamos para cá há 10 anos. Grande parte desse período tivemos no local criação de chinchila”, diz a professora Marysuze Coelho Brandão Fraulob. “Não conhecemos quem criou o cinema, mas achamos muito interessante a estrutura. É possível observar ainda alguns detalhes do que foi o cinema. Agora, fizemos desse espaço um depósito das coisas daqui de casa. Digo para o meu filho que temos um cinema em casa”, brinca. Dificuldades Na década de 1960, assistir a filmes de diretores considerados mais artísticos em Campo Grande era complicado. Foi nessa época, mais precisamente em 1967, que surgiu um cineclube reunindo intelectuais, estudantes, professores, profissionais liberais, entre outros. Coordenado inicialmente pela professora Maria da Glória Sá Rosa e com participações de Abílio Leite de Barros, José Octávio Guizzo, entre outros, o espaço trouxe para a cidade filmes de diretores como Fellini, Bergman, Antonioni. “Começamos num salão na minha casa, depois passamos a exibir em escolas secundaristas e faculdades”, diz a professora. Era o período da ditadura militar e os filmes precisavam passar pela censura. Maria da Glória conta que um filme do sueco Ingmar Bergman, “Silêncio”, foi considerado pornográfico pelo censor. “Nem era, mas tentava catalogar assim, mas conseguimos passar”. Nos anos seguintes, o cineclube passou por outras fases até ser extinto na década de 1980. No período em que esteve atuante, tanto a direção como o público que prestigiou suas exibições mostraram o amor pelo cinema, seja na apreciação dos filmes como nas discussões que aconteciam na sequência da projeção. Outros espaços O engenheiro e pesquisador Celso Higa lembra que não eram somente as salas de projeção comerciais ou de resistência cultural que faziam exibições de filmes na cidade. Cita os colégios Dom Bosco e Paulo VI como pontos nas décadas de 60 e 70. “No caso do Dom Bosco, as crianças ganhavam o ingresso caso assistissem à missa nos sábados”, lembra. Nas sessões, podiam ver obras com temas bíblicos ou seriados note-americanos dos anos 30 e 40. Uma boa viagem pelo assunto é o livro “Salas de sonhos – história dos cinemas em Campo Grande”, de Marinete Pinheiro e Neide Fisher, lançado no ano passado. Assim como os filmes, as histórias envolvendo as salas de projeção trazem muito da emoção do público. No caso de Campo Grande, há 100 anos esta emoção é constante.

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