Documentário sobre Ayrton Senna faz sucesso no exterior

IG20 de Janeiro de 2012 | 00h00

No final de 2011, quando começaram a aparecer mundo afora as listas de melhores filmes do ano, um nome conhecido do público brasileiro estava entre eles. O documentário "Senna" estreou no país em novembro de 2010 – antes do que em qualquer outro lugar –, teve recepção moderada da crítica e ficou poucas semanas em cartaz. Não exatamente o que se esperaria de um filme sobre a vida de um maiores pilotos de todos os tempos, ainda mais se tratando de um brasileiro.

Mas ao começar sua carreira internacional, no início do ano passado, a situação mudou: o filme ganhou o prêmio de público do prestigiado festival de Sundance e bateu recordes na estreia na Inglaterra e na Austrália, sempre amparado por críticas entusiasmadas da imprensa estrangeira. Nesta semana, mais uma vitória, ao receber três indicações (melhor filme britânico, melhor documentário, edição) ao Bafta, o "Oscar" britânico.

A coleção de louros de "Senna" impressiona. A revista de cinema inglesa "Empire", uma das mais conhecidas do mundo, elegeu o filme sobre o piloto como o segundo melhor de 2011, à frente de "O Discurso do Rei", "Bravura Indômita", "Cisne Negro" e até do hypado "O Artista". Ganhou o prêmio de melhor documentário do ano do British Independent Film Awards (onde também foi indicado a melhor filme), do Netflix, iTunes, do Satellite Awards, e nos festivais de Los Angeles, Melbourne e Adelaide. Ficou entre os cinco melhores documentários do ano do National Board of Review, panteão da crítica norte-americana, e entre os 10 melhores filmes esportivos da história segundo o jornal irlandês "The Score".

Não para por aí. "Senna" ainda concorre nas premiações dos sindicatos dos produtores e dos roteiristas de Hollywood, prévias eficazes do Oscar, nas categorias dedicadas a documentário. O filme só vai ficar de fora mesmo da festa da Academia, já que não figurou entre os semifinalistas do prêmio. A exclusão de "Senna" surpreendeu diversos veículos, como o jornal britânico The Guardian, e até serviu de exemplo para justificar a revisão das regras para o Oscar de melhor documentário.

Biografia autorizada

O entusiasmo da imprensa internacional com o filme, no entanto, não encontrou eco na crítica brasileira. À época da estreia, o comentário mais comum nas críticas sobre "Senna" era o de que o filme seria "chapa branca" por mostrar o piloto como um "semideus", glorificando seus feitos e evitando suas falhas. O curioso é que não se trata de uma produção nacional: "Senna" foi dirigido pelo cineasta inglês Asif Kapadia e produzido pela companhia britânica Working Title Films, em parceria com a ESPN.

 

O jornalista Reginaldo Leme, que é entrevistado no documentário, discorda de um suposto ufanismo do filme. Ele admite que o documentário teve a aprovação da família Senna, mas descarta o favorecimento de uma visão parcial. "[O filme] mostra, inclusive, a realidade do relacionamento entre Senna e [Alain] Prost. Como faz o Fernando Alonso com o Felipe Massa, [Senna] chega na equipe e quer dominar." Leme se refere à famosa rivalidade nas décadas de 1980 e 1990 entre o brasileiro e o francês na McLaren, fartamente ilustrada com imagens de arquivo.

Também especializado em Fórmula 1, o jornalista Rodrigo França, autor do livro "Ayrton Senna e a Mídia Esportiva", concorda que não seria complicado fazer um documentário pró-Senna. "Falar bem do Senna teoricamente é fácil, um herói nacional. Para a crítica daqui, talvez essa imagem de figura midiática, de herói, provoque um certo ranço."

O crítico carioca Carlos Alberto Mattos vai pelo mesmo caminho. "Existe no Brasil uma desconfiança, um pé atrás, contra o documentário 'a favor', justamente por causa da overdose de documentários laudatórios de figuras da cultura e da política. Já no mercado internacional não dão a mínima para isso. A heroização é muito mais aceita e comum, por exemplo, no mercado norte-americano. A gente não tem a tradição de herói."

França ainda rebate a afirmação de que "Senna" seria maniqueísta, ao procurar demonizar as figuras de Prost e de Jean-Marie Balestre, decano das federações internacionais de Automobilismo Esportivo (FISA) e do Automóvel (FIA), desafeto de Senna, em especial no caso do Grande Prêmio do Japão de 1989 (Senna ganhou a corrida, mas teve a vitória anulada e foi suspenso da F-1). "Isso só surgiu no Brasil. Nos Estados Unidos, na Inglaterra, ninguém reclamou. Nem na França falaram alguma coisa dessa história do Prost e do Balestre."

"Cuidado com biografias autorizadas, no cinema ou na literatura, é sempre salutar", afirma Amir Labaki, fundador e diretor do festival de documentários É Tudo Verdade. "Creio, antes de tudo, que as qualidades cinematográficas do filme não foram devidamente ressaltadas."

 

Bilheteria: boa para documentário, ruim para a lenda

Nos cinemas brasileiros, "Senna" foi visto por 211 mil pessoas. Apesar de distante de blockbusters como "De Pernas pro Ar" e "Cilada.com", que atraíram mais de 3 milhões de espectadores, o desempenho, por se tratar de documentário, é considerado satisfatório.

Isso porque em qualquer lugar do mundo o público para o formato é diminuto, já que as ficções dominam a preferência e o circuito exibidor. Nos EUA, por exemplo, "Senna" foi distribuído de forma independente, já que os grandes estúdios não acreditam no potencial de documentários nas bilheterias.

 

"O documentário tem um espaço no Brasil maior do que em outros países, mas mesmo assim se trata de um público bastante específico", aponta Pedro Butcher, editor do Filme B, portal especializado no mercado de cinema. "Um filme como 'Lixo Extraordinário', indicado ao Oscar, teve público bem menor [49 mil] do que 'Senna'."

Esse cenário minguado fez de "Senna" o quinto documentário mais visto dos últimos 20 anos no país, atrás de "Fahreinhet 11 de Setembro" (674 mil espectadores), "Todos os Corações do Mundo" (265 mil, sobre a Copa de 1994), "Pelé Eterno" (257 mil) e "Buena Vista Social Club" (228 mil). Mesmo assim, a ideia de que o filme poderia ter ido mais longe é geral.

"É um público expressivo para documentários no Brasil, mas decepcionante para o potencial do personagem. Poderia ter sido maior", afirma Labaki.

Rodrigo França também acredita que a bilheteria ficou aquém do esperado. "Confesso que me surpreendi não com a recepção lá fora, mas aqui dentro. Reencontrei o diretor do filme no GP de Mônaco e ele disse que esperava mais do Brasil, ficou um pouco decepcionado."

Na opinião de Carlos Alberto Mattos, o documentário não fez um lançamento adequado no país. "O filme chegou aos cinemas de repente, sem nenhuma preparação, sem procurar o lastro de popularidade que o Senna tem no Brasil. Não tinha identidade certa, não se sabia se era inglês, brasileiro... Foi lançado como mais um documentário de esporte, e não como algo sobre o Ayrton Senna que as pessoas amavam."

Segundo Pedro Butcher, é mais comum que filmes esportivos encontrem seu público no mercado doméstico e na televisão. A Universal não divulgou a vendagem de DVDs de "Senna" no Brasil, alegando confidencialidade, mas no Reino Unido foi um sucesso: mais de 600 mil cópias, um recorde para o gênero na região.

Para Labaki, o reconhecimento do filme no exterior é justíssimo. "É um documentário eletrizante sobre um dos maiores esportistas do século 20. Não me lembro de documentário de maior impacto sobre o universo da Fórmula 1."

"Não é sempre que a gente vê documentário esportivo chegar nesse nível de recepção", continua Mattos. "Geralmente só temas maiores, como 'Trabalho Interno' [ganhador do Oscar] e filmes de Michael Moore atingem esse estágio. Mas ['Senna'] é um filme que funciona muito bem e tem uma construção dramatúrgica do personagem excelente."

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