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Paulo César D. Paes: "'Eloketi Okowó' o teatro Terena"

Professor de Artes Visuais da UFMS

9 NOV 2017 • POR • 08h00
Ilustração de "'Eloketi Okowó' o teatro Terena" - Divulgação

Com a intenção de prevenir DST/Aids entre populações indígenas, a ONG Inter Ativa desenvolveu um programa- formação junto à etnia terena, entre 1998 e 2003.

Dentre as muitas atividades desenvolvidas foi criado o Grupo de Teatro Eloketi Okowó, que significa “alegria” e que se organizou a partir da Associação de Moradores Indígenas AMI, no Bairro Guanandi.

 Os ensaios aconteciam na casa do Sr. Agostinho, um respeitado líder Terena de Campo Grande. O grupo era integrado por descendentes terena, basicamente por meninas adolescentes, dois meninos, uma criança e sua mãe já adulta.

Como o grupo esteve ativo durante 6 anos, ao final quase todos já eram adultos. Vi aquelas meninas crescerem e, até hoje, quando visito a casa do Seu Agostinho, sinto o imenso carinho e respeito que se estabeleceu entre nós durante essa inesquecível vivência humana a artística.

Os ensaios aconteciam aos sábados à tarde, numa grande varanda que era um local familiar de reunião das lideranças. Na época das apresentações os ensaios se repetiam várias vezes por semana e passávamos a viver integrados à comunidade.

Dinâmicas corporais, dramáticas e de expressão vocal eram lúdicas e às 3 horas de ensaio passavam como brincadeira. Vivíamos ali uma espécie de encantamento como descoberta, cada tom de voz, cada sentimento ou história contada, lentamente ia construindo uma empatia e sensibilidade comuns.

A montagem dos espetáculos resultava das dinâmicas de criação coletiva, realizadas a partir das próprias histórias da comunidade e dos debates sobre sexualidade, saúde reprodutiva e prevenção das DST/Aids, que aconteciam em várias comunidades terena.

O sol, como divindade das tradições terena, era um ícone central dos espetáculos, juntamente com a natureza e as relações amorosas e sexuais dos jovens.

Nunca houve resistência por parte das comunidades em relação à franqueza com que os temas eram ali debatidos, mas nas aldeias a religiosidade terena era um tabu, sendo reprimida pelos evangélicos em grande maioria. 

No primeiro ano de trabalho os integrantes do grupo quase não falavam a língua materna e os espetáculos eram montados em português.

Com o passar do tempo o grupo adquiriu confiança e a língua terena passou a fazer parte do cotidiano. Essa talvez tenha sido a maior conquista do trabalho, as peças passaram a ser encenadas em terena.

 Além das apresentações em Campo Grande alugávamos uma van, em alguns finais de semana e íamos apresentar nas aldeias: Bananal, Ipegue, Lagoinha, Água Branca e Cachoeirinha. Muitas aldeias já não falavam mais o terena tradicional como os jovens do Grupo, e o espetáculo causava um grande estranhamento por parte das comunidades visitadas, que aplaudiam entusiasmadas.

Anos depois, eles se estiveram presentes em mostras de Teatro em Campo Grande, Corumbá e Fortaleza, sob a direção de Fernando Cruz.

Por onde se apresentavam causavam admiração pela arte sincera e pela sonoridade de uma língua pouco conhecida.

Hoje, quando atuo na defesa dos direitos indígenas, no Coletivo Terra Vermelha, sinto a intensidade de anos dividindo sentimentos, como se uma parte de mim tivesse se tornado terena. Quem lhes estivesse à frente. Ou atrás.