OPINIÃO

Antônio Carlos Siufi Hindo: "Martinho Lutero"

Promotor de Justiça aposentado

9 NOV 2017 • POR • 01h00

O mundo protagonizou, dias atrás, os quinhentos anos da reforma protestante capitaneada pelo monge alemão Martinho Lutero. Foi um golpe duro na Igreja de Cristo. O impacto daquele fatídico discurso proferido do púlpito da Igreja do Castelo de Wittenberg foi devastador.

Sua fragmentação resultou inevitável. Ninguém poderia, em sã consciência, prever as suas consequências, tamanha a força política e religiosa da autoridade do papa. 

A pedra angular da discórdia tinha o seu fundamento plenamente justificado. Estava relacionado com o comércio das indulgências, patrocinado por uma parte do clero ganancioso.

O medo do inferno e a esperança cética na salvação empurravam a grande massa da população mundial a experimentar os desafios do clero faminto. Para a salvação, enchiam as burras da Igreja de dinheiro. Era essa a grande promessa para a conquista do paraíso.  Um ato de pura esperteza. 

No período medieval, a Igreja condenava os lucros excessivos  nas transações comerciais. Defendia o preço justo, o que aborreceu fortemente a ganância da burguesia.

Os comerciantes viviam ameaçados com a condenação. O inferno era o caminho inevitável. Lutero mostrou a outra  face do tema. A tese que sustentava estava mais identificada com os interesses modernos para a época. A Igreja não deu importância para essa sustentação. Desconheceu a passagem bíblica em que o próprio Cristo se irritou com os vendilhões do templo. 

Essa verdade resultou incontestável. Ela tem que ser interpretada na sua literalidade. Não admite outra interpretação. Mesmo assim, a Igreja reagiu. O papa, com um ato extremo, expulsou o monge alemão das hostes da Igreja Católica.

O intento papal não prosperou. Lutero queimou a bula papal em praça pública. Estava consolidada a encrenca. As consequências seriam devastadoras.

Católicos e protestantes desencadearam uma guerra insana ao longo de séculos. O continente europeu mergulhou em sangue. Irmãos contra irmãos se enfrentaram em uma luta ensandecida pela defesa de seus princípios e da sua fé religiosa. 

Mas isso tudo não aconteceu em razão apenas do discurso do monge alemão. A força do seu impacto só foi possível em decorrência do surgimento  da imprensa. Conquista preciosa da humanidade.

Foi outro alemão o seu inventor. Com a invenção dessa poderosa máquina, os copistas medievais conheceram lentamente o seu desaparecimento. Os papiros e pergaminhos que eram utilizados para a realização dos seus trabalhos foram substituídos pela impressão rápida e eficaz.

Eles baratearam os livros. Colocaram a cultura ao alcance de todos. Esse privilégio deixou de pertencer aos mais ricos e poderosos. 

Vários exemplares da Bíblia foram impressos e chegaram ao conhecimento da grande massa da população. As informações, os questionamentos, as opiniões enriqueceram o debate.

A imprensa contribuiu para a evolução crítica do ser humano. Conquista enriquecedora. O homem saiu das trevas e passou a conhecer a beleza da luz. Essa é a grande verdade. 

Igreja nenhuma salva ninguém. A salvação reside no coração das pessoas. São os atos que praticamos que apontam para essa direção. Não existe outra forma sadia de interpretar esse tema.

A Igreja Católica reconheceu o seu erro. Virtudes que precisam ser creditadas aos pontífices lúcidos que, com o brilho da sua inteligência, souberam construir o futuro promissor da Igreja Católica.