Terça, 25 de Abril de 2017

FUTEBOL-SANTOS

Aposta da base já sumiu três vezes, mas clube dá última chance

21 MAR 2017Por FolhaPress08h:07

Em fevereiro, na última volta de Diogo Vitor, 20, ao Santos, o técnico do time B, Kleiton Lima, teve o que ele mesmo chamou de "conversa definitiva" com o atacante, um dos principais nomes das categorias de base do clube. Era a terceira vez que o jogador desaparecia da Vila Belmiro e depois retornava.

"Os diálogos têm de ser duros, mas tenho de insistir. Se largar da mão dele, sei que o Diogo vai afundar de vez. Pode ser a última chance", disse Lima à reportagem.
Diogo Vitor está no Santos desde 2010. Chegou como meia. Dois anos depois, quando se tornou atacante, virou um dos principais nomes do departamento amador. A maior aposta do clube, famoso por revelar atletas para a seleção brasileira.

Seu empresário é Wagner Ribeiro, que já trabalhou com Kaká e Neymar. Mas mesmo ele ameaça perder a paciência com o cliente.

"O Diogo é um fenômeno. Joga muito. Eu fiz de tudo para ajudá-lo. Mas ele precisa tomar jeito porque o futebol não perdoa. Da minha parte, já disse que é a última chance. Ele precisa ter foco na carreira", afirmou Ribeiro.

O último sumiço aconteceu antes do carnaval deste ano. Quando reapareceu, havia gente na diretoria que queria vê-lo dispensado.

"O Diogo faz mal para ele mesmo. Não sabemos o que se passa na cabeça dele", disse Barbirotto, treinador de goleiros do Santos B.

Para descobrir isso, ele vai à psicóloga. O clube percebeu que os problemas ocorrem quando Diogo vai para a Santana da Vargem, em Minas Gerais (260 km de Belo Horizonte). É lá que encontra parentes, amigos de infância. E esquece do Santos.

Foi também onde se envolveu em acidente de carro em abril do ano passado. Antes disso, não se reapresentou na Vila Belmiro porque alegou estar com dor de dente.

"Não sabemos de tudo o que aconteceu na vida dele. Sabemos que é órfão. Morava com a bisavó, que também morreu. Aqui em Santos ele não tem nenhum familiar por perto", completa Lima.
A mãe de Diogo, Luciene, foi atropelada há quatro anos, junto com o tio José Maria. Ela morreu na hora. "Diogo também não tem mais o pai", afirma Ribeiro.

O CLUBE ACREDITA

O Santos insiste porque vê qualidades no atacante. Na última quinta-feira (16), em jogo-treino contra o Jabaquara, ele atuou por 35 minutos e deu três passes para gols. A equipe venceu por 6 a 0.
Dorival Júnior o observava, ao lado do auxiliar Celso de Rezende. Ele deu uma chance para Diogo em 2016, mas desistiu após os sumiços.

"É um garoto que não quer nada para a vida dele", se queixou Dorival.

O discurso de Diogo Vitor é de humildade. Quem o ouve custa a crer que aquele é o jogador indisciplinado e que teve o salário cortado pela diretoria por causa das ausências. Ele jura: desta vez será tudo diferente. Mas sabe que desconfiam da promessa.

"Tive umas recaídas. Estava com a cabeça fraca de ficar indo para Minas. Agora estou focado. Vai dar certo", disse o atacante.

De cabeça baixa, concorda precisar melhorar e que errou bastante. Diz que a diretoria fez certo em cortar seu salário. Nos dias desaparecido, gente do clube lhe telefonava. Ele decidiu não atender.
O Santos aposta que a chegada de parentes à cidade vai melhorar a situação.

"A minha irmã, o marido e a filha vêm morar comigo. Sei que o Santos tem tido paciência. Espero retribuir", afirma.

É mais uma tentativa com o jogador que resolve dentro de campo na mesma medida em que confunde fora dele.

"Não sei o que ocorre. Você conversa e o Diogo concorda com tudo. Diz 'sim, senhor' e promete fazer o que pedem. Talvez seja trauma de infância. Queremos ajudá-lo", diz Wagner Ribeiro.

 

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