Sábado, 03 de Dezembro de 2016

PESQUISA INÉDITA

Moradores de MS são os que mais
consomem contrabando no Brasil

Levantamento indicou que pessoas sabem que produtos financiam violência e crime

14 OUT 2016Por RODOLFO CÉSAR17h:00

A população de Mato Grosso do Sul está na principal região do Brasil que mais consome produtos contrabandeados. O comércio de produtos ilegais, em destaque o cigarro, resulta em recursos que financiam o crime organizado que tem ramificações na fronteira, principalmente com o Paraguai.

A pesquisa que identificou essa realidade foi feita pelo Datafolha, encomendada pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO) e Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade (FNCP). Foram entrevistadas mais de 2 mil pessoas em 130 municípios, entre eles Campo Grande.

A média nacional da população que assumiu consumir produtos contrabandeados é de 26%, enquanto o recorte da região Centro-Oeste, formada por Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal, indica uma porcentagem acima de 35%.

O mesmo levantamento considerou que o Estado é o principal corredor para distribuição de cigarros, medicamentos, drogas e armas. A distribuição dos produtos ilegais vai para cidades do Sudeste, mas também para Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal.

O presidente do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial, Edson Vismona, afirmou que os estudos realizados para identificar a situação do contrabando e outros trabalhos que analisam a situação do tráfico de drogas demonstram que a região de fronteira é controlada pelo crime organizado.

"Quando o Estado não ocupa (uma região), a criminalidade age. Veja a situação do Rio de Janeiro. Depois que há um domínio, é muito difícil reverter a situação", afirmou Vismona.

Ele citou a disputa pelo comando do tráfico de drogas em Pedro Juan Caballero (Paraguai), onde o brasileiro Jorge Rafaat Toumani foi executado em emboscada que houve o uso até de armamento anti-aéreo. O narcotraficante foi morto em 15 de junho, mesmo usando carro blindado e tendo dezenas de seguranças. Além das drogas, Rafaat tinha outros negócios na cidade fronteira com Ponta Porã, como loja que vende pneus.

"A região de fronteira está se tornando cada vez mais perigosa. E as forças de segurança reclamam que falta investimento", apontou Vismona.

RECONHECIMENTO DO ILÍCIO

A pesquisa inédita ainda confirmou que as pessoas reconhecem que os recursos gerados na venda de produtos contrabandeados acabam tendo relação com o crescimento da violência e da criminalidade.

Entre os moradores do Estado e das outras unidades federativas do Centro-Oeste, 66% sabem dessa relação promíscua entre o contrabando e o crime. "Os brasileiros optam pelo menor preço, por isso escolhem esses produtos. Essas mercadorias são de menor preço, mas com um custo muito maior", analisou Edson Vismona, referindo-se ao financiamento de facções criminosas.

O Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade (FNCP), que reúne mais de 70 entidades, e o Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), divulgaram que por ano o Brasil perde cerca de R$ 115 bilhões com o comércio de mercadorias ilegais.

Com esse mesmo montante seria possível construir 974 hospitais, ou 57 mil creches, ou 22 mil escolas públicas.

SOLUÇÃO LONGE

O presidente do ETCO, Edson Vismona, sugeriu que o Conselho Interministerial de Fronteiras, criado pelo governo federal no primeiro semestre deste ano, pode ser uma solução para fortalecer a fiscalização na fronteira.

Contudo, depois de criado, ainda não houve movimentação para definir a composição final do órgão.

Tanto o ETCO como o FNCP receberam das forças de segurança demandas para serem exigidas do governo federal. Entre os pedidos estão a necessidade de scaners para caminhões, que seriam usados pela Polícia Rodoviária Federal; drones para serem utilizados pela Marinha e Exército; efetivação de pagamento extra para agentes que trabalham em região de fronteira

"É competência federal (atender essas demandas). É uma questão urgente que não está sendo tratada como vemos que seria preciso", finalizou Vismona.

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