Sábado, 19 de Agosto de 2017

Saúde

Colírio sem recomendação pode prejudicar os olhos

29 AGO 2014Por 11h:45

O período de seca, a falta de umidade do ar, a fumaça, as constantes nuvens de poeira, tudo isso leva os olhos a ficar mais ressecados, uma sensação de areia dentro deles. E uma tendência é, por conta própria, buscar alívio nos colírios, vendidos livremente em farmácias. Razão que já levou a Sociedade Brasileira de Glaucoma a cobrar uma posição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para realizar o controle da comercialização desse tipo de produto oftalmológico.

Não é de hoje que esse tipo de comércio tem sido alvo de críticas de entidades médicas. Isso porque os colírios comercializados livremente nem sempre estão isentos de provocar um dano mais sério à visão. Segundo o oftalmologista Kássey Vasconcelos, do D'Olhos Hospital Dia, de Rio Preto, os colírios vendidos sem receituário podem parecer inofensivos, mas medicamentos que contêm corticoide em sua composição, por exemplo, quando utilizados com frequência e sem prescrição médica, podem levar à cegueira.

“Infelizmente, muitas pessoas, ao sentirem algum incômodo, vão diretamente à farmácia e compram o medicamento sem antes passar por um especialista. Com isso, acabam por colocar a saúde em risco. O diagnóstico correto é fundamental para evitar problemas futuros. As doenças têm suas peculiaridades, portanto, o ideal é avaliar caso a caso e utilizar o colírio específico para cada paciente e por um determinado prazo”, explica.

Com ele concorda o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, que reconhece ser cultural no Brasil a prática da automedicação, mesmo podendo ser fatal para a visão, como é o caso do uso de determinados colírios. Queiroz Neto conta a história de paciente que pingou colírio de corticosteroide durante uma crise de herpes e acabou causando perfuração ocular.

“A visão só não foi perdida porque submeti a paciente a uma cirurgia de emergência, em que a córnea foi colada com cianoacrilato, uma espécie de 'super bonder', para interromper o vazamento do humor aquoso, líquido que preenche o globo ocular”, diz. O motorista Marco Antonio Costa, 38 anos, recorre ao uso de colírio diariamente. “Como passo muitas horas dirigindo, e vivo na estrada, estou sempre pingando um pouco de colírio para evitar que os olhos fiquem vermelhos demais”, diz.


Corticoide eleva casos de glaucoma

Ao ser usado indiscriminadamente, o corticoide danifica a estrutura do olho. Um desses problemas é o aumento da pressão intraocular provocado pelo glaucoma, que causa lesões no nervo ótico e, como consequên-cia, leva ao comprometimento da função visual. Pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG) revela que 80% dos portadores do glaucoma só buscarão um oftalmologista após perceber alguma mudança de campo visual (vista borrada, perda de visão, olhos vermelhos e desconforto).

Segundo o oftalmologista Marcelo Mendonça, da Clínica Glaukos, de Rio Preto, que também é diretor da SBG, o glaucoma é a primeira causa de cegueira irreversível no Brasil e no mundo. “Hoje, somos um milhão de brasileiros com a visão reduzida, e a única forma de reverter esse quadro é com o diagnóstico precoce da doença”, diz. A pesquisa foi realizada com cem portadores de glaucoma dos hospitais-escola de São Paulo (Santa Casa, Unifesp e Unicamp), de referência no País.

O estudo revelou que as principais limitações para quem tem a doença são: diminuição da capacidade de leitura, dificuldade em se adaptar a ambientes claro-escuros e caminhar. “É importante que a população brasileira saiba sobre os cuidados com a visão a partir dos 40 anos de idade, fase em que os primeiros sinais da doença podem surgir. Por isso, a consulta anual ao oftalmologista é tão fundamental”, reforça Mendonça. Porém, lembra o médico, qualquer pessoa em idade adulta pode desenvolver a doença e deve procurar seu médico se nunca foi examinada.

E pelo fato de o uso contínuo de corticoides estar relacionado ao aumento nos casos de glaucoma, é importante saber que esta é uma doença de evolução silenciosa. Sobre este assunto, o oftalmologista José Renato Duarte, do HO Redentora, de Rio Preto, acrescenta: “O antecedente familiar de 1° grau (pai, mãe ou irmãos) aumenta em dez vezes a chance do indivíduo desenvolver glaucoma.”

Limpe as mãos antes de aplicar

Lavar as mãos antes de mexer nos olhos é uma das principais maneiras de mantê-los longe de doenças, explica o oftalmologista César Lipener, da Universidade Federal de São Paulo, e membro da Sociedade Brasileira de Lentes de Contato, Córnea e Refratometria. O médico observa ainda que, para um tratamento oftalmológico eficaz, é preciso tomar alguns cuidados.

“Diferente do que muitas pessoas pensam, existe uma maneira correta de pingar colírios, e não aplicá-lo pode comprometer o tratamento”, diz. A visão é uma região muito sensível e vulnerável do corpo humano, por isso, é fundamental estar com as mãos higienizadas antes de aplicar o colírio. Bem como, ao aplicar, seguir um determinado procedimento.

“O indivíduo deve inclinar a cabeça para trás, puxar levemente a pálpebra inferior, de maneira a deixar um espaço para a penetração do colírio, colocar o produto em cima do olho, sem encostar, e pingar a quantidade exata indicada pelo oftalmologista. O ideal é que a pessoa olhe para cima no momento da aplicação e não feche os olhos imediatamente após ter colocado o colírio”, explica, enfatizando que, ao fechar os olhos bruscamente, o extravasamento do produto pode comprometer a eficácia do tratamento.

Olho seco

O médico diz que muitas doenças oculares são tratadas com colírios, e uma das mais comuns é a síndrome do olho seco, disfunção na produção ou na qualidade da lágrima, que pode provocar o ressecamento da superfície ocular, principalmente da córnea e da conjuntiva.

“Estima-se que 15% da população brasileira seja acometida pela doença, que tem maior incidência em mulheres acima dos 40 anos, devido a causas hormonais, mas também pode se desenvolver nos homens”, diz. O uso de alguns medicamentos sistêmicos também pode interferir na produção da lágrima, causando sintomas de olho seco.

Herpes e conjuntivite

Na tentativa de se livrar do olho vermelho, muita gente recorre ao uso de colírios. No entanto, os especialistas alertam que este pode ser o principal sinal da existência de alguma doença mais séria.
A coloração vermelha pode estar relacionada à conjuntivite, inflamação da conjuntiva, ou até indicar a presença de herpes. O oftalmologista Queiroz Neto chama a atenção dos pais para o fato de que a herpes é uma doença que pode surgir em crianças, a partir dos 5 anos de idade, e cegar se não tiver tratamento adequado.

HSV

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo todo, mais da metade das pessoas já entraram em contato com o HSV, vírus do herpes simples que ataca os olhos e os lábios. O especialista explica que, embora a recorrência do herpes ocular seja mais comum no verão, devido à exposição excessiva ao sol, é importante estar alerta sempre para o risco da manifestação do HSV.

“Os pais podem confundir o herpes com conjuntivite, porque as duas doenças têm vários sintomas em comum - olhos vermelhos, lacrimejamento, dor ocular, inchaço, aversão à luz e sensação de corpo estranho”, afirma Queiroz Neto.

“A diferença é que o vírus do herpes pode atacar a córnea e causar inflamações recorrentes que levam à perda progressiva das células, diminuindo a visão. O tratamento exige acompanhamento médico e prescrição de medicamentos antivirais, que funcionam bem para a maioria das pessoas”, completa o oftalmologista.


Previna-se

:: O uso contínuo de colírio com corticoide pode levar à cegueira
:: A utilização indiscriminada de medicamentos e colírios pode colocar em risco a saúde dos olhos
:: Os colírios vendidos sem receituário podem parecer inofensivos, mas medicamentos que contêm corticoide em sua composição, quando utilizados com frequência e sem prescrição médica, podem levar à cegueira
:: Ao ser usado indiscriminadamente, o corticoide danifica a estrutura do olho. Um desses problemas é o aumento da pressão intraocular provocado pelo glaucoma, que causa lesões no nervo ótico e, como consequência, o comprometimento da função visual
:: A ausência de sintomas do glaucoma agrava ainda mais a situação. A doença age silenciosamente, elevando a pressão do olho aos poucos, sem que o paciente sinta nada. Até que o glaucoma seja descoberto, a enfermidade costuma estar em um estágio irreversível

 

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