Camillo e Gabriel Zahran foram alvo da Operação Castelo de Cartas, que investiga estelionatos cometidos pelos irmãos
Alvo da Polícia Civil de São Paulo por estelionatos contra investidores do interior paulista ontem, um dos irmãos Zahran já aplicou golpe em amigo sob promessa de retorno com um projeto de fintech voltado para produtores rurais em Mato Grosso do Sul.
Na quarta-feira, Camillo e Gabriel Zahran estiveram no centro do noticiário policial ao serem colocados como chefes de um golpe que enganou diversos investidores no Estado de São Paulo, e que teriam utilizado o sobrenome conhecido no ramo dos negócios para gerar mais credibilidade na negociação. Em um passado recente, um golpe semelhante foi aplicado por um deles, desta vez contra um amigo.
Segundo documento que o Correio do Estado teve acesso, tudo começou em 2017, quando Camillo Zahran e Felipe Leite apresentaram a Felipe Aidar, amigo de longa data da dupla, oportunidades comerciais “relativas a operações de empréstimo com garantias reais para produtores rurais com atividades em Mato Grosso do Sul”.
Pela relação antiga com os dois, Aidar realizou três empréstimos aos dois, que totalizaram R$ 300 mil, porém, o objeto da ação disse que “apenas” metade deste valor ainda seria uma dívida de Zahran e Leite. Com isso, as partes assinaram, em agosto de 2018, uma confissão de dívida com prazo de seis meses para que toda a inadimplência fosse quitada.
Porém, destes R$ 150 mil a pagar, a dupla amortizou apenas R$ 31,7 mil, que foram pagos em duas parcelas durante os anos de 2018 e 2019. A fim de receber o restante, Aidar encaminhou notificações aos devedores em 2022, com a esperança de resolver a situação ainda de forma amigável. Mas, sem sucesso.
Diante disso, em dezembro do mesmo ano, Aidar entrou com ajuizamento para cobrar na Justiça os valores a serem pagos por Zahran e Leite.
Como forma de contrapor a versão dada por Aidar, a dupla justificou que a oportunidade comercial oferecida ao amigo não seria um empréstimo, mas, sim, um projeto de fintech. Além disso, contestaram a confissão de dívida afirmando que tudo se tratava de uma simulação.
Em abril de 2024, o juiz Paulo Henrique Ribeiro Garcia, da 1ª Vara Cível do Foro Regional de Pinheiros (SP), não atendeu ao pedido da defesa de Zahran e Leite, argumentando que em nenhum momento a dupla apresentou prova consistente (documento, CNPJ ou contrato social) de que existia uma sociedade ou projeto de fintech.
Também, o juiz considerou a confissão de dívida válida e dentro dos requisitos legais para ser cobrada judicialmente. Por isso, o magistrado reconheceu que a cobrança da inadimplência deve continuar normalmente e determinou que a dupla também teria que pagar as custas do processo e os honorários do advogado de Aidar, fixados em 10% do valor da causa.
Operação
A segunda fase da Operação Castelo de Cartas foi deflagrada ontem em São José do Rio Preto (SP) e Campo Grande pela Polícia Civil de São Paulo. Na capital sul-mato-grossense, o alvo foi dois herdeiros da família Zahran, Gabriel e Camillo.
Gabriel foi encaminhado para a Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac/Cepol) para prestar depoimento, já que foi alvo somente de mandado de busca e apreensão. Depois de três horas, ele foi liberado e deixou o local sem falar com a imprensa.
Já seu irmão Camillo foi alvo de mandado de prisão, mas como não foi encontrado, foi considerado foragido e segue assim até o fechamento desta edição.
Em coletiva de imprensa realizada no interior paulista, o delegado da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) da Polícia Civil, Fernando Tedde, informou que as investigações começaram em 2025, com algumas vítimas de golpes no município paulista, e a polícia conseguiu identificar que os autores eram de Mato Grosso do Sul.
Conforme a Polícia Civil, o golpe consistia em induzir empresários a adquirir cotas de empresas de fachada, sob a promessa de lucros elevados. Para dar mais credibilidade, eles utilizavam o vínculo com o grupo empresarial do setor de gás e energia, alegando que as falsas empresas seriam terceirizadas.
Vítimas de várias cidades sofreram prejuízos milionários ao investirem nestas empresas, que só existiam no papel.
“Eles criaram a empresa de fachada, que simulava essa situação, e foram angariando o dinheiro, como se as pessoas estivessem realmente investindo nesse grupo empresarial. E, quando [as vítimas] foram cobrar os dividendos, descobriram que eles estavam sendo enganados”, afirmou Tedde.
O delegado paulista acrescentou que as investigações apontaram que os irmãos seriam os líderes do esquema criminoso.
Os crimes atribuídos a eles são estelionato comum e estelionato praticado pela internet. As investigações seguem para identificar se há mais vítimas do esquema criminoso, assim como se há mais pessoas que participavam na aplicação dos golpes.
A primeira fase da operação foi deflagrada na segunda-feira, quando foram apreendidos 10 veículos – alguns de luxo –, joias, cheques e notas promissórias que somam mais de R$ 1 milhão, objetos de grande valor e cerca de R$ 250 mil em dinheiro em espécie.
Reincidente
Além de Camillo, Gabriel Zahran também já esteve envolvido em polêmicas passadas. Há mais de quatro anos, em setembro de 2021, Gabriel foi indiciado por homicídio culposo por tirar a vida de Rosevaldo Matias Moitinho, de 46 anos, que seria seu funcionário.
A vítima foi assassinada com um tiro no abdômen enquanto ambos caçavam um javali dentro de um haras, localizado em Campo Grande. Inclusive, em seu depoimento, Gabriel apresentou o documento de caçador, atirador desportivo e caçador (CAC), alegou que o caso aconteceu de noite e entregou a arma que foi usada no crime.
No boletim de ocorrência, foi confirmado que Gabriel levou Rosevaldo até a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) mais próxima, versão dada inicialmente . Porém, também foi relatado que a vítima foi deixada sozinha no complexo hospitalar.
Assine o Correio do Estado