Sábado, 18 de Novembro de 2017

O amigo da onça

9 AGO 2010Por 21h:00

Conforme amplamente noticiado pela mídia local e nacional, inclusive no programa Fantástico da Rede Globo de TV (01/08/2010), a Polícia Federal (PF), em ação conjunta com o Ibama, prendeu no último dia 20 de julho, na denominada Operação Jaguar, uma quadrilha que ganhava dinheiro com o abate clandestino de animais silvestres de grande porte, tais como, onças-pintadas, pardas e pretas, no Pantanal de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e no Paraná. A quadrilha, equipada com modernas armas de caça, chegava ao Pantanal em aviões particulares, pousava em fazendas da região e realizava safáris! Calcula-se que o número atualizado de felinos abatidos pela quadrilha de 2009 até agora seja de 32 animais. As 11 pessoas detidas na operação estão distribuídas nas cidades de Sinop (MT)-8, Corumbá (MS)-2 e Curitiba (PR)-1, mas duas ainda se encontram foragidas:o fazendeiro Célio Néri Prediger,de Corbélia (PR) e Antônio Teodoro de Melo Neto, o “Tonho da Onça”, residente em Rondonópolis (MT). (Jefferson Gonçalves/CapitalNews, 21/07/10; Dênis Matos/Campo GrandeNews,21/07/10; Daniella Arruda/Correio do Estado, 22/07/10; Bruno Grubert/Correio do Estado, 27/07/10; Michelle Rossi/Correio do Estado, 28/07/10; André Mazini/O Estado, 26/07/10).
As investigações foram iniciadas com o suporte do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama) no ano passado, após a descoberta de carcaças de onças em algumas fazendas do Pantanal e também com o desaparecimento de onças monitoradas pelo Ibama em regiões próximas ao município de Corumbá. Conforme o delegado responsável pela Operação Jaguar, Mário Nomoto (Daniela Arruda/Correio do Estado, 22/07/10) “havia duas modalidades de abate clandestino agenciadas pela quadrilha: a primeira é a caça esportiva, por hobby, e a segunda aquela contratada por fazendeiros para eliminar animais que estavam dizimando o rebanho bovino”. Eram cobrados U$ 1,5 mil (R$ 2,6 mil) por safári, fora o transporte e hospedagem. Para isso, a quadrilha tinha como guias pessoas especializadas na caça de onças, os “mateiros” Marcos Antônio Moraes de Melo, e o pai dele, Antonio Teodoro de Melo Neto, mais conhecido como “Tonho da Onça”. Eles eram contratados para auxiliar os caçadores a encontrar as onças utilizando cães farejadores.
No cumprimento dos 14 mandados de busca e apreensão, os policiais encontraram um arsenal de armas e munição utilizado nas caçadas, além de grande quantidade de couros, cabeças empalhadas e outras partes dos animais abatidos. O armamento foi localizado em Cascavel, Paraná, na residência do dentista Eliseu Augusto Sicoli, apontado como o líder da quadrilha. Ele era o responsável pelo agenciamento e recepção dos “turistas” e contratava pessoas dos Estados onde aconteceriam as caçadas para servir de guias. Entre os detidos estão quatro argentinos, um paraguaio e três brasileiros, sendo um deles policial militar. Os suspeitos serão indiciados nos crimes previstos na Lei de Crimes Ambientais (lei 9605/98) – Perseguir, caçar ou matar animais da fauna silvestre sem permissão – Pena de seis meses a um ano e ainda por porte ilegal de arma de fogo, cuja pena prevista é de até 4 anos de reclusão; e mais o artigo 288 do Código Penal (Formação de Quadrilha ou Bando – Pena de 1 a 3 anos de reclusão).
Embora não justifique o crime, um dos fatores que pode estar contribuindo para a ocorrência do verdadeiro massacre de onças no Pantanal talvez seja o crescimento populacional desses felinos nos últimos anos, e o consequente aumento de ataques ao rebanho bovino da região (Silvio Andrade/Correio do Estado, 23/07/10; André Mazini/Tainara Rebelo, O Estado,26/07/10). Andrade, citando o pesquisador Peter Crawshaw, diz que a onça-pintada,um dos maiores predadores do mundo, aumentou consideravelmente sua população no Pantanal, na última década, embora figure na lista do Ibama e da União para Conservação da Natureza como espécie vulnerável. E acrescenta: “Os maiores motivadores da morte de onças ainda são conflitos com fazendeiros e a busca por troféus típicos das Américas tropicais, grande parte por caçadores estrangeiros”. E cita a fala do presidente do Instituto Onça Pintada (IOP), Leandro Silveira: “Muita gente sabe (da caça ilegal), mas nunca se pega ninguém”. E em reportagem no jornal “O Estado”,  André Mazini destaca a fala do pecuarista corumbaense Manuel Martins de Almeida: “Antigamente era raro alguém ver uma onça, mas hoje onde tem boi, tem onça comendo. Pra proteger o rebanho, só com ‘benzeção!’”
O aspecto mais revoltante, porém, nesse episódio de matança de onças no Pantanal, é a presença ativa de dois profissionais que não deveriam de forma alguma participar de safáris ilegais na região. O primeiro é o profissional FC. se entregou à Polícia Federal, em 26/07,em Curitiba (PR). (Michelle Rossi, Correio do Estado, 27/07/10). O segundo é o mateiro,“Tonho da Onça”, que agia como verdadeiro agente duplo, ora auxiliando o Ibama no monitoramento de onças ameaçadas de extinção, ora facilitando a vida de caçadores nacionais e estrangeiros para matá-las, sabedor que era dos hábitos desses felinos no Pantanal. Neste caso, ele agia como verdadeiro “amigo da onça” das onças-pintadas pantaneiras, semelhante ao personagem satírico imortalizado pelo pernambucano Péricles de Andrade Maranhão (1924-61), e publicado pela primeira vez na revista “O Cruzeiro” em 23 de outubro de 1943. E durma-se com um barulho desses!

Hermano de Melo, Médico veterinário, escritor e acadêmico de Jornalismo

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