Sábado, 03 de Dezembro de 2016

Entrevista

‘Minha ideia para reduzir número
de vereadores é alinhada aos meus
ideais de um Estado menor

Vinicius Siqueira é vereador

16 OUT 2016Por Cristina Medeiros04h:00

Até o início de 2015, Vinicius Siqueira era apenas um cidadão de Campo Grande que cumpria suas funções como Oficial de Justiça. E foi como cidadão indignado que liderou o primeiro protesto a favor do impeachment de Dilma Rousseff, iniciado na Capital e que depois se espalhou pelo País. Tornou-se presidente da Associação Pátria Brasil e, neste mês, elegeu-se vereador pela Capital. Nesta entrevista ao Correio do Estado,  fala sobre sua trajetória, da utilização primordial das redes sociais para chegar aos eleitores, da autonomia para defender seus ideais, entre outros temas.

CORREIO PERGUNTA 
O senhor foi eleito vereador pelo Partido Democratas, com 3.386 votos. O que o levou a se candidatar nestas eleições?
VINICIUS SIQUEIRA -
As ruas me empurraram para a candidatura. Nós sentimos a necessidade de um representante realmente popular.  Nós fizemos algumas reivindicações durante o ano de 2015 na Câmara dos Vereadores  e sentimos muito esta dificuldade. O que as pessoas queriam não se refletia dentro da Câmara. Nós não temos aqui em Campo Grande nenhuma linha liberal de direita, e eu me defino como uma pessoa liberal. Então começamos a trabalhar e conhecer empresários que também se interessaram por esta linha de pensamento, profissionais liberais, pessoas comuns do povo. E foi tudo natural, as pessoas me cobrando e eu resolvi sair candidato. 

Sua campanha foi feita toda por meio das redes sociais, sem contato direto com a população. Acredita que mesmo assim consegue conhecer as dificuldades dela?
Eu sou Oficial de Justiça há 12 anos e sempre fiz questão de trabalhar na periferia. Neste período como oficial eu nunca trabalhei em bairros de classe média/alta ou de classe alta, sempre com os mais humildes. Conheço  Campo Grande, como se diz na gíria, de cabo a rabo. Conheço todos os bairros, os problemas das ruas, das comunidades, porque atendi estas pessoas durante 12 anos. Eu entro na casa destas pessoas cumprindo mandado, converso muito, tenho trabalho intenso com a população embora não fosse político, mas tenho muito conhecimento de como a população de Campo Grande vive. 

E por que o senhor decidiu optar pelas redes sociais?
Eu tive muita exposição durante os protestos. Patrocinadores para a minha campanha não faltaram, só que quanto mais dinheiro você usa numa campanha, mais amarras você tem. Quanto mais barata sua campanha, mais liberdade para defender suas convicções você tem.Então, optei por isso. Eu achava - e eu estava certo - que teria votação suficiente para entrar mesmo sem uma campanha tradicional como os políticos têm atualmente. Eles falam que aquele modelo de reuniões é o modelo tradicional. Eu achava que o que eu construiria estava certo e lutamos para isso, montamos um estúdio caseiro muito barato com materiais totalmente alternativos, utilizando tubos de PVC para iluminação. Consegui montar estrutura muito barata, especialmente para que eu tivesse liberdade. Se eu entrasse na Câmara dos Vereadores devendo favores, devendo dinheiro, eu não seria o vereador que eu sempre sonhei ser. Eu busquei isso, a liberdade com baixo custo. 

O senhor aprendeu nos EUA como utilizar as redes sociais. Acha que o uso desta ferramenta foi decisivo para sua eleição?
Ela me ajudou muito, mas o meu trabalho durante o ano de 2015 foi fundamental. Muita gente acha que meu trabalho foi apenas na rede social, mas não foi. Nós comandamos os protestos aqui, fomos os principais mobilizadores deles. No dia da votação do impeachment na Câmara, em Brasília, nós estávamos sobre um caminhão e a população acompanha, sabe. Então, fizemos também um trabalho durante 2015 e isso acabou refletindo numa eleição vitoriosa. Quanto às redes sociais, utilizei as duas de maior abrangência: o Facebook e o Wattsapp. Meus vídeos, graças a Deus, eram muito ricos em conteúdo e foram muito compartilhados. A população passou a conhecer o trabalho, a prestar atenção no conteúdo de nossas matérias pela quantidade de multiplicações. A população começou a entender que os problemas poderiam ser discutidos realmente com ela.  Por exemplo, um problema de saúde aqui em Campo Grande, de municípios que em vez de tratar os seus doentes lá, ou porque não têm verba ou não têm recursos, sem estrutura, acabam enviando doentes aqui para a Capital e Campo Grande paga boa parte do tratamento sem a devida compensação. Eu dei um jeito de explicar tudo isso de uma forma bem simples e acessível para a população e acabou fazendo sucesso. Nós tivemos muitas visualizações de nossos vídeos, mais visualizações do que candidato a prefeito. Chegou um momento em minha campanha que se eu somasse os vídeos do Marquinhos (Trad), da Rose (Modesto) e do (Alcides) Bernal eles não ultrapassavam as minhas visualizações. E eu fui candidato a vereador.

O senhor diria que o custo de sua campanha foi baixo diante do perfil dela?
Sim. Nós tivemos alguns patrocinadores que foram amigos. Meu principal patrocinador é um empresário que dividiu o caminhão de som comigo nos protestos; tive alguns empresários que não vendem para o Governo. São amigos que doaram pouco, R$ 1 mil, R$ 1,5 mil. Eu não tive doações de R$ 100 mil como alguns vereadores tiveram. Mas o que eu queria era isso, ter doações de R$ 1 mil, R$ 2 mil, R$ 3 mil para que eu tenha liberdade. Dentro da Câmara eu quero defender o que eu sempre preguei e o que a população pede para que eu faça. 

Quais as principais propostas neste seu primeiro mandato? Minha principal proposta é a fiscalização de licitações e contratação de comissionados irregulares. Licitações fraudulentas e excesso de comissionados. 
Eu vejo nestas duas vias dutos de vazamento de dinheiro público. Precisamos ter um olhar mais atencioso para estas questões e eu pretendo fazer um combate ferrenho a isso.

O senhor foi líder de movimentos como “Chega de impostos”, “Marcha da Mordaça”, contra o governo Dilma Rousseff. Como tudo isso começou?
Isso começou  quando Dilma (Rousseff) veio a Campo Grande inaugurar a Casa da Mulher Brasileira. Eu estava muito descontente porque ela foi eleita dizendo que reduziria o valor da energia elétrica, o preço do combustível e dos tributos. Mas ela fez exatamente o contrário! Aumentou tudo e foi covarde - ela foi eleita em novembro e aumentou tudo em novembro e dezembro, ficando enclausurada na residência oficial dela durante todo o período. Nem a imprensa tinha acesso à presidente. Em fevereiro ela foi obrigada a sair de lá para vir inaugurar a Casa da Mulher Brasileira aqui na Capital porque era um projeto de campanha dela. Era a primeira Casa da Mulher Brasileira a ser inaugurada no País e ela não tinha muita opção, teve que vir. Eu vi naquilo a oportunidade de iniciar os protestos. Foi o primeiro protesto contra a então presidente Dilma em 2015. Foi aqui em Campo Grande, foi aqui que começou.

E o senhor já tinha experiência anterior neste tipo de coisa, protesto público?
Não. Eu nunca tinha me filiado a partidos políticos, sou funcionário público há 12 anos e nunca me filiei ao sindicato, nunca tinha participado da vida pública. Mas a situação do País naquele momento mexeu comigo. Eu vi que, embora fosse titular de um cargo público estável, que minha vida era razoavelmente confortável, eu não poderia mais ficar quieto,  tinha que fazer alguma coisa porque ninguém vinha fazendo. O Brasil vinha de um período de oposição muito fraco. E aí decidi: vamos lutar!  E hoje vejo que foi algo muito importante. Me filiei ao Democratas no último dia que era possível se filiar para participar das eleições. E escolhi o Democratas porque foi o único partido realmente de oposição para o governo de Dilma Rousseff.  O PSDB ficou conhecido como o “partido em cima do muro” e o Democratas, embora muito pequeno em número, não conseguia fazer frente ao governo Dilma com o número de aliados que tinha, mas realmente foi oposição. O meu vínculo regional com o Democratas é zero. Eu não tenho parentesco com os políticos do Democratas regional, não os conhecia. Minha filiação ao Democratas foi em virtude da ideologia nacional do partido, por isso eu o escolhi. Me filiei no último dia que era possível para se candidatar, dia 2 de abril. Este dia era um sábado e a filiação acontecia pela internet. Às 10 da noite eu estava dormindo e um amigo me ligou: “Nós temos que ir, tanto que Campo Grande lutou e a gente vai ter os mesmos vereadores para serem votados, a gente precisa renovar”. Ele me convenceu e, no último dia para filiação, me filiei ao Democratas às 23h45min com o sistema congestionado. Eu quase não consigo sair candidato a vereador.

Caso Marquinhos Trad se torne prefeito, acredita que ele terá dificuldades de atuação por ter minoria na Câmara?
Eu acho que ele tem que construir a sua base. Acho que o Marquinhos (Trad) tem muito mais diálogo que o (Alcides) Bernal. Penso que se o Bernal estivesse na frente com cinco vereadores que eu acho que ele fez, teria problemas. Mas o Marquinhos é uma pessoa de mais diálogo,  vai conseguir formar esta base de apoio para dar esta tranquilidade que Campo Grande precisa. A gente não merece mais quatro anos de guerra. Eu acho que os projetos bons têm que ser votados, aprovados. Os projetos ruins desaprovados. Mas a gente não pode votar por partido, por birra, a população não merece mais isso. Nós temos que votar com independência e votar no que é certo. Se o projeto é bom tem que ser aprovado e se é ruim tem que ser negado.

Embora ainda não tenha assumido seu cargo como vereador, o senhor já está lançando propostas. Esta semana divulgou um vídeo no qual sugere a diminuição do número de vereadores na Câmara Municipal de Campo Grande.
Sim, lancei no início da semana o projeto que eu acho mais difícil de toda a minha plataforma de propostas. Eu quero fazer uma alteração na Lei Orgância do Município. Esta lei é nossa constituição, ela é muito difícil de ser alterada e para propor alteração é preciso dez votos. Para aprovar, 20 e nós somos 29. Então, tem que ser uma maioria esmagadora para aprovar alguma coisa. E é muito mais difícil quando a proposta mexe diretamente com os políticos. A minha proposta de reforma da Lei Orgânica do Município é para reduzir o número de vereadores. Não destes que foram eleitos agora, porque têm direito de mandato até 2020. Mas para a próxima eleição minha proposta é para reduzir de 29 para 15 vereadores. E isso nos trará grande economia de salários, de número de assessores, de custo de indenizações de pelo menos 50%. A minha ideia para redução da Câmara é justamente alinhada aos meus ideais de um Estado menor. Eu acredito que precisamos de um Estado menor para que nos cobrem menos impostos. A gente tem que reverter esta carga tributária. O empresariado, a população, os profissionais liberais não aguentam mais esta carga tributária deste tamanho, temos que começar a cortar.  Então lancei esta proposta, lancei um site chamado www.menosvereadores.com.br, onde qualquer um pode acompanhar a posição de cada um dos 29 vereadores eleitos, se eles são favoráveis ou não, e é uma ferramenta para que a população faça pressão, para que eles liguem, consultem e façam pressão para que o vereador que eles acabaram de eleger aprove. Assim, na próxima eleição disputaremos 15 cargos apenas e não 29. A Prefeitura tem que ser menor, nós temos que gastar dinheiro com o que importa não, com vereadores, indenizações de gasolina, passagens. 

O senhor tem noção que seu trabalho será feito em grupo  e que terá que ser conivente com este ou aquele grupo dentro da Câmara? Se sente confortável para atuar desta maneira ou  fará sempre oposição respeitando aquele seu pensamento de fazer apenas o que sua consciência mandar?
Muita gente me diz: “Quem me garante que o senhor vai entrar lá e não vai se corromper?” Eu não farei parte de blocos, eu tenho uma ferramenta muito importante na mão, que é esta entidade de combate à corrupção em Brasília. E ela me permite o ajuizamento de ações civis públicas, que é a ação do Ministério Público (MP). Para muitos casos, eu não serei apenas um voto. Eu serei vereador e uma espécie de promotor auxiliar,  terei o poder cível do MP. É claro que toda vez que eu ajuizar uma ação contra algo que eu vejo de irregular o Ministério Público entrará junto no processo. Mas pelo menos me permite esta legitimidade para ajuizar este tipo de ação. Isso permite com que eu não fique quieto. Que se eu estiver vendo alguma coisa errada na Câmara, por mais que seja um bloco, as pessoas que me elegeram me colocaram lá para isso. Elas sabem que eu não vou me calar e que eu não vou fazer trabalho em grupo para coisas erradas.

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