Sábado, 24 de Setembro de 2016

Entrevista

‘A pesquisa é um retrato do
momento, ela é uma fotografia’

Lauredi Borges Sandim é Diretor-presidente do Instituto de Pesquisas de Mato Grosso do Sul (Ipems)

18 SET 2016Por Cristina Medeiros04h:00

Economista por formação,  Lauredi Borges Sandim fundou, há 25 anos em Campo Grande, o Instituto de Pesquisas de Mato Grosso do Sul. Nesta trajetória, entre as várias pesquisas realizadas, cita com maior ênfase as relacionadas às eleições, seja para deputados e vereadores, seja para prefeito e governador. Nesta entrevista, ele fala sobre os métodos utilizados para se chegar aos números mais próximos do real; se a pesquisa influencia resultados e cita o maior feito do instituto em todos estes anos. 

CORREIO PERGUNTA 
O senhor é economista e diretor do Instituto de Pesquisas de Mato Grosso do Sul (Ipems), que tem 25 anos de atuação no Estado e que nesta época de eleição tem o trabalho intensificado. Qual é o método utilizado na pesquisa eleitoral para se chegar ao resultado divulgado ao público?
Lauredi Borges Sandim -
Depende de uma série de fatores. Primeiro, o tamanho do município e grau de dificuldade da pesquisa. Em cima de tudo isso nós montamos um plano amostral que contempla as variáveis importantes numa pesquisa: sexo, idade e distribuição geográfica. Colhemos a amostra, depois fazemos a ponderação e preparamos o relatório final. Basicamente é isso. 

É possível utilizar mais de uma metodologia para se confirmar o mesmo resultado?
Sim, mas a nossa metodologia, praticamente todos os institutos utilizam a mesma hoje para pesquisas eleitorais. Ela é quantitativa, são entrevistas pessoais domiciliares, muitas vezes em pontos de fluxo por meio do flagrante, mas nós utilizamos, na verdade, colhemos amostras nas residências, respeitando a proporção de cada localidade dentro do município, tanto urbana quanto rural. O plano amostral é o segredo da pesquisa. Porque uma pesquisa tem que retratar, com fidelidade, a distribuição geográfica eleitoral do município, tanto urbana como rural. No rural nós temos assentamentos, aldeias, distritos, tudo isso tem que ser levado em conta. Esta é a primeira coisa, do contrário, falha a pesquisa. Muitas vezes no majoritário, não. Mas no proporcional, no caso para vereador, sim, porque aí muitas  vezes você não pode, não faz entrevista numa localidade onde é reduto eleitoral de candidato a vereador.  

Qual a diferença entre fazer entrevistas por telefone, pessoalmente nos domicílios ou pessoalmente em locais públicos?
A pesquisa por telefone em pesquisa eleitoral tem um viés muito  grande, não utilizamos. Isso seria para fazer acompanhamento em relação a programas eleitorais, se houvesse ocorrido algum fato durante o processo de campanha. Em fluxo de localidades públicas também não funciona porque muitas vezes a dispersão da amostra não se faz presente naquela localidade. A pesquisa que fazemos é mesmo a domiciliar, respeitando a proporcionalidade das regiões urbanas e rural do município. 

Uma pergunta comum entre os eleitores é como as pesquisas conseguem refletir a intenção de voto. Como é este caminho?
É preciso montar este plano amostral, é um questionário que não seja contaminado, que não direcione a resposta que você não deseja e é preciso fazer um bom treinamento com os entrevistadores. Muitas vezes as pessoas ligam e perguntam “por que em determinados institutos os indecisos, nulos, brancos chegam a 30%, 40% e em outros 10%, 12% 14%?”. É uma questão de metodologia, de treinamento, de coordenação de rechecagem, de filtragem. Isso é importantíssimo, este controle externo e interno que tem que ter em relação a esta amostra que está sendo colhida e trabalhada.

Qual é o número mínimo de entrevistas por região para obter dados confiáveis sobre intenção de voto?
Eu diria que depende do tamanho do município.  Mas a gente sempre trabalha com a amostra mínima de 200 entrevistas. Mas alguns estudiosos dizem que seria em torno de 300 o número ideal, o que daria uma margem de erro de 5,7%. Agora, para cada região, no mínimo, a gente trabalha com dez entrevistas por região, setor ou conglomerado, porque do contrário nós não vamos chegar a uma inferência estatística, uma anomalia pode acontecer no resultado final da pesquisa. Existe uma metodologia quase que universal, aceita pelos institutos, que o número mínimo por extrato seria de 14. Então nós trabalhamos com 14, e muitas vezes 10 ou 12. Nós usamos inferências estatísticas. O que quer dizer?  Nós aumentamos o número de entrevistas, acima da proporção daquela região e depois fazemos a ponderação, este é o segredo da pesquisa, a ponderação.

Diferença entre as pesquisas é normal?
Existem dois tipos de pesquisa: a bem feita e a mal feita. A pesquisa bem feita, não tem diferença, todas estão dentro da margem de erro.

O senhor diria que a pesquisa não muda resultado, que é apenas um termômetro do momento?
Sim,  eu acho que não influi. Mas o pessoal diz “ah, tem o voto útil e tal, o pessoal está esperando pesquisa”. Muita gente me liga perguntando quem eu acho que vai para o segundo turno ou se ganha ou não no primeiro turno. Mas é muito relativo! Porque as pessoas que acompanham as pesquisas já têm opinião formada. Então, eu diria que se por ventura ocorrer alguma influência em relação à divulgação de pesquisa isso aí não chega a 2%, 3%. É mínimo.

O senhor concorda com a afirmativa: o resultado de uma pesquisa bem feita, com números verdadeiros, não muda de um dia para outro, a não ser que ocorra algum fato extraordinário?
Sim, concordo plenamente. Se acontecer um escândalo, se sair um esqueleto do armário, um vídeo, uma denúncia, ou mesmo num debate. Quantos debates, no final deles, decidiram eleições; jogam a última cartada naquele debate e isso pode empolgar.

O eleitor confia nos resultados da pesquisa?
De forma geral, sim. O problema das pesquisas é que hoje nós temos uma proliferação de institutos. Hoje, não necessariamente a pessoa precisa ter um instituto de pesquisa. Hoje, uma agência de publicidade, uma empresa jornalística, um médico, um dentista, se quiserem, usam o CNPJ  e registram uma pesquisa. Hoje, desde que ele consiga uma estatística e esteja regular no Conre (Conselho Regional de Estatística),  pode fazer a pesquisa. Mas de modo geral o eleitor confia, tanto é que ele fica na expectativa, sempre aguardando os resultados, fica ligado.

A manipulação de dados existe por parte de alguns institutos de pesquisa? 
Existe. Existe porque eu já vi coisas que até Deus duvida em relação à pesquisa. E isso existe, mas em qualquer profissão existe o bom e o mau profissional e na pesquisa não seria diferente. 

Quanto tempo depois deve ser divulgado o resultado de uma pesquisa já concluída e tabulada? É correto esperar vários dias para divulgar depois de concluída a pesquisa?
A pesquisa é um retrato do momento, ela é uma fotografia. Então, se passar mais de uma semana, ela já pode perder o valor. Isso, se durante aquele processo a campanha se acirrar, surgirem fatos novos. Mas, muitas vezes, ao longo destes 25 anos, acompanhei casos em que a situação durante todo o processo eleitoral se manteve, porque não aconteceu nenhum fato novo, do jeito que começou a campanha, terminou. A questão da divulgação, quanto mais depressa, melhor. Você, para divulgar uma pesquisa, tem que registrá-la no site do TRE. Sua empresa tem que estar regularizada, tem que ter estatística, CNPJ, e  tem que obedecer os critérios estabelecidos na resolução que dispõe sobre as pesquisas eleitorais: o número de entrevistas, o período da realização, margem de erro, o grau de confiança, o contratante, o valor da pesquisa e assim por diante. A partir do registro é o próprio sistema da Justiça Eleitoral que dá uma data, a partir daquela data, que é possível a divulgação. Isso, depois de um interstício de 5 dias.  No sexto dia a pesquisa já estaria disponível  para divulgação. Mas você pode solicitar o registro de uma pesquisa que já foi realizada, de uma pesquisa em curso ou de uma pesquisa a ser realizada no futuro próximo, então, você pode ganhar tempo. 
Nestes 25 anos de trajetória os resultados sempre foram mais próximos ou mais distantes da realidade?
Eu tenho hoje uma tradição no Estado de acertar os resultados. Antigamente, nós divulgávamos pesquisas dos cargos proporicionais - vereador e deputado. E nós acertávamos 90% a 95%.E então adquirimos muita credibilidade por conta de acertar os resultados para cargos proporcionais, que é muito mais difícil, o grau de dificuldade é muito maior. Acertar para prefeito e governador é fácil. Agora, acertar quanto cada coligação chapa pura faz e quem seriam os eleitos, é mais complicado. Por exemplo, os 29 vereadores de Campo Grande este ano, nós tentamos cravar 25. Se dividirmos 25 por 29, são 86% e nós acertamos. Agora, o maior acerto do Ipems nestes 25 anos ocorreu nas eleições de 2014, no segundo turno para Governo do Estado, onde a diferença foi na casa centesimal. Dos votos válidos, o Ipems divulgou no dia anterior, antes do Ibope, do MSTV, que o Reinaldo Azambuja teria 55,30 pontos e o Delcídio, 44,79. Foi o nosso maior feito, onde nós fizemos 971 entrevistas em 33 dos 79 municípios.

E o senhor se recorda de algum resultado, nestes 25 anos, que tenha se afastado muito da pesquisa
divulgada?

Normalmente, são os candidatos populistas, estes candidatos radialistas. Porque eles saem sempre liderando pesquisas, sempre muito bem e lá no final o pessoal vai podando. Estes radialistas, este pessoal da mídia é o pessoal que mais pode incorrer neste tipo de problema. Porque eles têm um nível de conhecimento muito grande, o nível de conhecimento sobre ele é de 70%, 90%, então eles levam vantagem.  

Para esta eleição de 2016, qual é a abrangência das pesquisas no Estado?
Agora é uma eleição diferente, localizada e nós estamos fazendo pesquisas na maioria dos municípios de Mato Grosso do Sul. Em termos de abrangência, em 100% do Estado.

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