Operação do Gecoc prendeu 7 pessoas, entre elas, o ex-secretário de Infraestrutura Rudi Fiorese e seu braço direito, Mehdi Talayeh
O Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), descobriu um esquema de corrupção milionário na Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), que envolvia contratos de tapa-buraco de Campo Grande e resultou na prisão de dois servidores da prefeitura e um ex-titular da Sisep. O esquema que envolvia empresa e servidores funcionava como uma verdadeira “máfia”.
A Operação Buraco Sem Fim, deflagrada ontem, cumpriu 7 mandados de prisão preventiva e 10 mandados de busca e apreensão, todos na Capital.
De acordo com o MPMS, a ação visa desarticular um esquema de desvio de dinheiro público que estava sendo realizado em contratos de infraestrutura em Campo Grande.
“A investigação constatou a existência de uma organização criminosa que atua fraudando, sistematicamente, a execução do serviço de manutenção de vias públicas no Município de Campo Grande, por meio da manipulação de medições e da realização de pagamentos indevidos”, explica o órgão, em nota.
Entre os presos está Rudi Fiorese, que foi secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos de Campo Grande de 2017 a 2023 e atualmente exercia a função de diretor-presidente da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos de Mato Grosso do Sul (Agesul), até ser exonerado do cargo horas depois de a operação vir à tona.
Durante o cumprimento das ordens judiciais de busca e apreensão, foram encontrados valores altos em dinheiro vivo, totalizando pelo menos R$ 429 mil. Só no endereço de um servidor havia R$ 186 mil em espécie.
Em outro imóvel, havia R$ 233 mil, também em espécie. Esse dinheiro estaria na casa do ex-secretário Rudi Fiorese, segundo apuração da reportagem.
Ainda de acordo com o MPMS, um levantamento indicou que, entre 2018 e 2025, a empresa investigada acumulou contratos e aditivos que somam o montante de R$ 113.702.491,02.
Apuração do Correio do Estado apontou que a empresa alvo da operação é a Construtora Rial, que mantém contratos ativos com a prefeitura até hoje.
Conforme consta no portal da Transparência do Executivo municipal, a empresa é responsável pelo tapa-buraco de quatro das sete regiões da cidade: Anhanduizinho; Bandeira; Imbirussu; e Segredo. Somando o valor original desses contratos e seus aditivos, a parceria atual entre a empresa e a Sisep soma R$ 114.608.571,16.
Vale destacar que o mais recente dos contratos, que abrange a região Bandeira, foi assinado em janeiro deste ano pelo valor de R$ 6.979.892,07 e recebeu um aditivo de R$ 2.057.672,18 apenas 40 dias depois de ter sido celebrado.
Além do ex-secretário, também foram presos os servidores Mehdi Talayeh, engenheiro que atuava com cargo comissionado de assessor executivo da Sisep, e Edivaldo Aquino Pereira, coordenador do serviço de tapa-buraco da secretaria. Ambos foram exonerados no fim da tarde de ontem pela prefeita Adriane Lopes (PP).
Os outros dois servidores presos, Fernando de Souza Oliveira e Erick Antônio Valadão Ferreira de Paula, ainda não foram exonerados de suas funções na Sisep.
Os empresários Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa, dono da Construtora Rial, e Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, pai do sócio da empresa, também foram presos.
VERSÃO
Em nota enviada à reportagem, a Prefeitura de Campo Grande disse que os contratos investigados são da gestão passada e confirmou que os servidores serão exonerados, para que possam apresentar suas defesas sem estar exercendo suas funções na Sisep.
“A Sisep acompanha os trabalhos do Gecoc, de modo a colaborar com a lisura, a transparência e o esclarecimento dos fatos. Os servidores investigados estão sendo exonerados das funções a partir da data de hoje para que apresentem suas defesas. Outras medidas que se fizerem necessárias serão adotadas no âmbito administrativo, para que os serviços de manutenção não sejam paralisados ou comprometidos em função dos acontecimentos”, trouxe note do Executivo municipal.
SEMELHANÇA
Esta não é a primeira vez que os contratos de tapa-buraco são alvo de investigação policial. Em 2015, um vídeo repercutiu na cidade após um funcionário da Selco Engenharia, empresa que prestava serviço de tapa-buraco na época, ser flagrado tapando um buraco inexistente na Capital.
Essa denúncia deu origem a uma força-tarefa que apurou os contratos de tapa-buracos vigentes na época.
No mesmo ano, os contratos foram alvo da Operação Lama Asfáltica, em um dos desdobramentos do MPMS.
A série de investigações resultou em uma ação civil pública por improbidade administrativa, que apurou irregularidades em contratos de tapa-buracos firmados pela Prefeitura de Campo Grande entre 2010 e 2015, concluindo que houve superfaturamento estimado de R$ 6,6 milhões.
Em novembro do ano passado, o ex-prefeito Nelson Trad, empresários, ex-secretários e servidores foram condenados pela prática criminosa, com penalidades que incluem suspensão dos direitos políticos por até 14 anos, multas que chegam a R$ 1,5 milhão, perda da função pública e proibição de contratar com o poder público.
Além desta, a Operação Buraco Sem Fim se assemelha à Operação Cascalhos de Areia, deflagrada em junho de 2023, após ser constatada a “atuação de possível organização criminosa estabelecida para a prática de crimes de peculato, corrupção, fraude à licitação e lavagem de dinheiro, relativos a contratos para manutenção de vias não pavimentadas e locação de maquinário de veículos junto ao Município, que ultrapassavam o valor de R$ 300 milhões”.
Excetuados Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa e Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, todos os presos ontem já haviam sido alvo da Cascalhos de Areia.