Sábado, 03 de Dezembro de 2016

CORREIO B

Tempo de reconstrução: em busca de um recomeço, o Haiti é aqui

19 OUT 2016Por CÁSSIA MODENA15h:12

À margem das paisagens paradisíacas do mar do Caribe e da histórica independência liderada por escravos, o Haiti vive uma atual instabilidade climática e econômica, que provoca intensas ondas imigratórias pela América Latina. É a nação mais pobre e a que mais teve habitantes mortos em catástrofes naturais nos últimos 20 anos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).  A última delas aconteceu na semana passada – o furacão Matthew, que deixou cerca de mil mortos e afetou a vida de mais um milhão de pessoas.

Mato Grosso do Sul é um dos destinos escolhidos para o recomeço de vida de quem resolve se deslocar do país centro-americano, marcado por sucessivas tragédias e pelas poucas oportunidades que oferece a seu povo. Eles começaram a chegar por aqui em 2010 - quando um terremoto devastou a capital Porto Príncipe. 

Hoje, há mais de mil imigrantes no Estado, segundo a Secretaria de Direitos Humanos e Assistência Social e Trabalho (Sedhast). Três Lagoas é o município onde atualmente vive o maior número de haitanos, aproximadamente 800 pessoas. Logo atrás vem a capital Campo Grande, com 150, e Itaquiraí, com 100 haitianos. A maioria são homens casados, que têm entre 26 e 32 anos, e deixam filhos no Haiti.

Os principais atrativos para o deslocamento até o Centro- Oeste do País é a proximidade com outros países do continente e principalmente as oportunidades de emprego na construção civil e no setor industrial. 
 
CHEGADA

Por terra, a rota de viagem dos haitianos até o Brasil passa pelos países República Dominicana, Panamá, Equador e Peru. Entram principalmente pelos Estados do Amazonas e Acre, onde geralmente se deparam com abrigos superlotados e precarizados. A viagem pode variar em torno de um mês, dependendo das condições em que é realizada.

Aqueles que vêm a Campo Grande, e não têm onde ficar, encontram apoio na Pastoral do Imigrante da Igreja Católica, no Centro de Triagem e Encaminhamento ao Migrante (Cetremi), no Centro de Apoio aos Migrantes (Cedami) e no Centro de Estudo, Formação e Atendimento em Direitos Humanos. No interior, contam principalmente com o auxílio de organizações não governamentais para se estabilizarem. 

Neste ano, um grupo organizado de imigrantes começou a discutir a criação de uma associação haitiana em Campo Grande e a debater formas de estimular a criação de lideranças nos bairros em que há pequenos núcleos de refugiados. Eles se reúnem todos os sábados no salão da Paróquia Divino Espírito Santo, no Bairro Rita Vieira, local cedido pela igreja para os encontros.

A ideia surgiu em conjunto, mas é instigada pelo médico Jean Daniel Zephyr, que nasceu em Petit-Goave, no Haiti, e a esposa Marisa. Em 2010, quando os primeiros haitianos começaram a chegar a Campo Grande, ele já estava aqui. Soube que havia conterrâneos por aqui precisando de ajuda e começou a se mobilizar. Filho de pais norte-americanos, se formou,na década de 1990, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), mas reconhece que nem todos os imigrantes têm as mesmas oportunidades que ele teve.

O trabalho voluntário era a única ajuda com a qual os poucos imigrantes podiam contar para se articular quanto ao acesso ao mercado de trabalho e à educação – o que mais buscavam, e ainda buscam, segundo Jean. 

COMO É AQUI 

Os idiomas oficiais do Haiti são o francês e o criolo – traços da colonização e do escravismo. Aprender o português é a principal dificuldade dos que chegam. Aos poucos, estão superando essa barreira com a ajuda do voluntariado e a abertura de aulas gratuitas em escolas da rede pública. 

A segunda dificuldade é o trabalho. Emprego eles até conseguem – muitas vezes as próprias empresas trazem haitianos para o Brasil, como mão de obra barata –, mas o problema são as irregularidades trabalhistas das mais diversas cometidas pelas empresas que os contratam. O estudo também é uma dificuldade, só mais recentemente é que o poder público começou a pensar no ingresso deles na Educação para Jovens e Adultos (EJA). 

Chamyr Ajean, 33 anos, chegou ao Brasil em 8 de dezembro de 2012. Veio de avião, já tinha a casa de um amigo como lugar certo para ficar. Atualmente está empregado na parte de manutenção da rede elétrica de uma empresa. Diz que ganha pouco e trabalha bastante.

Formado em Ciências Contábeis no Haiti, Chamyr trabalhava para a ONU e morava em uma favela em Porto Príncipe. Em 2010, sua família perdeu tudo. Seu diploma de contador ficou perdido junto aos destroços, sua formação não vale nada nem lá  nem para as empresas brasileiras. Agora, está estudando para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e entrar no curso de Engenharia Elétrica.

Antes de vir para o Brasil, ele fazia uma imagem do País, que mudou um pouco quando chegou. “Na verdade o Brasil é uma paixão. Começou pelo futebol e era em tudo. A decepção foi só o preconceito, mas eu nem ligo porque sei quem eu sou, e ninguém me conheceu, eu fico na minha. A pessoa não gosta de mim, eu não ligo”. 

Chamyr já passou por três situações de racismo e discriminação. Ele não gosta de falar porque a vida que leva aqui, no geral, é “muito tranquila” e ele não dá importância  a isso. As duas primeiras vezes foi no ônibus, quando as pessoas que estavam ao lado dele se levantaram e se sentaram em outro lugar, claramente incomodados com sua  presença. A terceira vez  aconteceu com um colega de trabalho. Ele não brigou nem o delatou, mas foi demitido por ter deixado de conversar com ele.

Uma situação que o incomodou logo quando chegou aqui foi a demora para a saída do visto. “Fui à Polícia Federal em dezembro, me disseram que sairia em abril. Perguntei se dava para adiantar, mas me disseram que aqui as coisas só funcionam depois do Carnaval”.

QUEM FICOU

Ronel Corvil, 30 anos, e Josué Charles, 32 anos, são amigos. Viviam em lugares diferentes no Haiti e se conheceram em Campo Grande. Charles chegou antes, em 2014, e Corvil veio para cá em 2015.

Eles fizeram viagens longas e não tinham emprego em vista ao chegarem, tampouco conseguiram fazer faculdade como Jean e Chamyr.

Para Ronel, foi melhor correr atrás dos sonhos aqui, porque não havia condições de ficar lá. Ele dava aula para crianças e era cabeleireiro no Haiti. Em Campo Grande, trabalha na construção civil há mais de um ano, e consegue ajudar a família quando o salário vem um pouco a mais. “Sempre atrasa e às vezes é R$ 900, R$ 1 mil, depende. Tenho aluguel e contas para pagar aqui também”. A esposa e a filha dele estão com o pai do haitiano.

Josué era vendedor. Abandonou a profissão e hoje também trabalha para uma empresa na construção civil, na fundição de ferro. Também deixou a família. “Esposa e três filhas, tudo meu está lá”.

Pretendem voltar para o Haiti para visitar familiares, mas ainda não pensam em voltar para ficar de vez. No momento, nem poderiam ir ou pagar a viagem de alguém até aqui. Na semana passada, foram até uma agência de viagem e saíram assustados. “Está muito caro. É mais de R$ 4,5 mil uma passagem, quantos meses eu vou trabalhar para ir?”, lamenta Ronel. O retorno vai ter que esperar.

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