Terça, 22 de Agosto de 2017

CORREIO B

Seresteiros que relembram canções românticas que perderam espaço

16 FEV 2017Por CASSIA MODENA16h:00

Das músicas cantadas pelas ruas em procissão, que faziam muitos saírem às janelas e sacadas, nasceu a seresta. Tradição da música popular brasileira, experimentou sua época de ouro nas vozes e nos violões de grupos nômades, que interpretavam canções melódicas nas calçadas. 

Somente mais tarde, começou a ser promovida como um show intimista nas praças, com equipamentos de som e data marcada. 

Da década de 1990 em diante, o movimento musical foi perdendo espaço em muitas cidades do País, mas permaneceu e teve prestígio estendido em Campo Grande – especialmente em virtude da “Noite da Seresta”, projeto que a promoveu até 2014, em uma parceria entre a prefeitura e os seresteiros. Ele não acontece desde que entrou na lista dos cortes de gastos municipais e não tem previsão para retorno. Mesmo assim, parte dos cerca de 90 seresteiros existentes por aqui continua ativa em apresentações confinadas a pequenos bares e clubes fechados.

O presidente da Associação dos Seresteiros de Mato Grosso do Sul, Silvio Lobo, tenta se movimentar para que o evento volte a acontecer. “É o projeto de maior cunho popular já promovido pela prefeitura”, justifica. Ele destaca que públicos de 10 a 15 mil pessoas já se reuniram para ver serestas em que Angela Maria, Cauby Peixoto, Agnaldo Raiol, Agnaldo Timóteo e Sidnei Magal participaram como cantores convidados. 

Nesse formato mais recente de apresentação, os seresteiros campo-grandenses faziam show de abertura para receber os convidados especiais uma vez por mês, nas noites de sexta-feira. Inicialmente, o cachê dos convidados e dos artistas locais era pago pela prefeitura.

ESPAÇO MENOR

Com violas, violões e um grupo de cantadores, estava formada uma seresta para sair nas noites campo-grandenses do passado. Houve época em que aconteciam livremente nas praças e comoviam moradores do Centro e dos bairros com polcas, boleros e guaranis carregados por letras sentimentais. Eram sucesso antes mesmo de serem formalizadas e abraçadas pela administração municipal, em 1994.

Quando a Noite da Seresta começou, era realizada na Praça Ary Coelho. O projeto teve algumas pausas e mudou para a praça do Rádio Clube em 2004. Muitas histórias dos seresteiros mais velhos, presentes das primeiras apresentações, já partiram com eles. 

Osvaldo Florêncio – ou Wadico, seu nome artístico – se lembra com saudade daquele tempo. Aos 76 anos, guarda vários flashes na memória das movimentações do palco improvisado na Praça Ary Coelho, onde fez muitos amigos e cantou as músicas românticas que gostava. Wadico trabalhava com alfaiate nesse período e, por isso, sabia como era importante estar bem vestido para se apresentar. “Porque é com uma boa apresentação visual que a gente ganha mesmo o público”, explica. Ele fez fama com as serestas, gravou dois CDs e chegou a participar do programa “Som Brasil”, da antiga TV Cultura.

“Antes, era só voz e violão na praça. Depois a gente começou a tocar também em bares famosos aqui da cidade que muitos nem lembram, o Sandália de Prata, o Som de Cristal, por exemplo”, conta Wadico. Os “tempos áureos da seresta” se foram, afirma, mas ela sobrevive em formatos diferentes, com espaço menor e com a ajuda do público fiel de sempre. 

Antônio César Neves, 63 anos, também cantou nas serestas das praças e bairros de Campo Grande. Foi influenciado pelo tio, que era “um seresteiro muito elegante, passava muito tempo penteando o cabelo, tinha os sapatos sempre muito brilhosos e voltava tarde para casa”, como descreve. Fez aula de canto erudito quando era jovem, mas pendeu mais para a música popular, por perceber que ela poderia passar mensagens a todo tipo de pessoa. Uniu isso ao gosto pela música internacional e pôde serestar com interpretações das canções de Elvis Presley, Frank Sinatra e artistas italianos.  

Quem também sente saudade é Ivone Souza, homenageada pela prefeitura com o título de “Rainha da Seresta”. Começou a cantar aos 12 anos, em Lins (SP). Quando mudou-se para Campo Grande, afastou-se dos palcos por questões religiosas e por causa dos afazeres da vida de mãe. Esperou que os filhos crescessem para começar a cantar na praça do Rádio Clube, seu palco preferido. Hoje, aos 80 anos, continua cantando.

BREGA

As serestas derivam das serenatas feitas nas janelas – os formatos são diferentes, sobretudo os ritmos lentos e letras românticas permaneceram. No início, eram vistas com preconceito por serem articuladas por grupos que pertenciam às camadas mais pobres das cidades brasileiras. 

Atualmente, outro preconceito, na opinião de Silvio, é associá-las à música brega e de baixa qualidade. Ele pesquisou sobre o movimento para escrever um livro sobre as serestas em Mato Grosso do Sul e garante que “grande parte do repertório da seresta é de músicas mais clássicas, com maior riqueza de notas musicais e uma diversidade de instrumentos de percussão, de sopro, o tradicional teclado, mas também até o piano, algumas vezes”.

As serestas cantadas em diferentes regiões do País têm características diferentes, explica Silvio. No Centro-Oeste, atualmente, elas passam pelos gêneros “samba-canção, tango, músicas sertanejas que são boleros, o próprio bolero e as ‘músicas emprestadas’, principalmente as guarânias paraguaias”.

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