Quarta, 07 de Dezembro de 2016

CORREIO B

Oficinas de arte são oportunidade para aprender lições de vida

14 OUT 2016Por CASSIA MODENA15h:23

Os minicursos e as oficinas culturais são oportunidades para aprender ou aprimorar técnicas ligadas à arte em curtos períodos de tempo. Dramaturgia, dança e desenho estão entre as opções mais comuns. 

Geralmente, são procurados por artistas dessas áreas, mas é cada vez maior o interesse de pessoas que não têm relação com o meio artístico ou não têm pretensão de aplicar o conhecimento adquirido em atividades na área da cultura. Essa abertura gera, inclusive, públicos mais mistos para essas capacitações.

O diretor de teatro Jair Damasceno ministra oficinas em Campo Grande e afirma que quem costuma lidar e falar a outras pessoas no dia a dia de sua profissão – professores, advogados e psicólogos, por exemplo – puxa uma crescente demanda por elas. “É um tipo de capacitação que atende à necessidade de se preparar melhor para estar com o outro. E, na verdade, todos nós temos essa necessidade, não é?”.

Esse público em especial procura absorver algo que possa ser útil no trabalho ou na vida pessoal. Nesse sentido, Jair vê as oficinas de teatro como laboratórios, em que podem experimentar e desafiar-se a lidar com as máscaras – personagens de si e do outro, que não são exclusividades da ficção e são criados e recriados no cotidiano. 

“Há várias formas de trabalhar isso. Nas minhas oficinas, trago criação de movimentos, peço para eles explorarem cenas comuns e extraordinárias do dia a dia, observarem a maneira como caminham [...]”.

TEATRO

Temporadas de aulas de dramaturgia são indicadas para quem precisa superar a timidez, saber se impor diante de uma situação de abuso, aprender a se expressar melhor, a ser mais criativo e a ter domínio da própria linguagem corporal e oral – por isso são as mais procuradas pelo público diverso. 

Quem fez oficinas e minicursos de teatro assegura que, apesar de breves, eles ajudam a resolver muitos desses problemas.

O psicólogo Henrique Henri, 28 anos, nunca atuou como ator ou fez cursos na área, mas participou de três oficinas de Damasceno, com o objetivo de aperfeiçoar o psicodrama, uma experiência que desenvolve em sua clínica com os pacientes. Este método da psicologia propõe que, individualmente ou em grupo, eles reproduzam cenas traumáticas ou de crise que vivenciaram, para então tentarem superá-las. 

Quando participou das oficinas, ele já tinha a intenção de trazer para o trabalho algum elemento técnico do teatro.“Procurava por uma vertente mais aprofundada do psicodrama e, depois dessas aulas, percebi avanços na forma em que eu olhava para mim mesmo enquanto profissional e para os meus pacientes”. 

A atriz e diretora de teatro Beth Terras também ministra oficinas na Capital e confirma o que percebeu o colega Jair Damasceno. Existe uma demanda para os cursos de teatro, principalmente entre o público adulto, que busca superar a timidez e alcançar desenvolvimento pessoal em todos os sentidos: melhorar relação com amigos, familiares, colegas de trabalho e desconhecidos. 

Empresários, advogados e psicólogos são os que mais procuram pelas dinâmicas de encenação que Terras promove nos cursos. Ela prefere não tratar atores e não-atores com distinção. “Não os enxergo como atores, professores, empresários. Eu esqueço disso. Eu vejo eles como pessoas que estão ali para enfrentar melhor as coisas, perder a timidez e falar melhor em público”.

A  advogada Kalyne da Silva, 35 anos, e o produtor rural Pablo Barbosa, da mesma idade, são colegas nas oficinas semanais de teatro que Beth Terras ministra em Campo Grande. Kalyne procurava por alguma atividade que a ajudasse a melhorar o desempenho profissional quanto à expressão corporal, fala e trabalho em equipe, enquanto Pablo recebeu a indicação para fazer aulas de teatro de um terapeuta, depois de descobrir que tinha um problema relacionado à linguagem. 

A advogada participa das oficinas há seis meses e afirma que, de forma natural, começou a ficar mais desinibida e espontânea nos ambientes que frequenta. Pablo também notou esse mesmo avanço e está, aos poucos, superando o problema na fala. O fazendeiro, que nunca teve contato com teatro, passou a vê-lo como “um aprendizado para a vida”.

DANÇA E CINEMA

A abertura que normalmente os minicursos de dança dão para a participação de não-dançarinos é atrativa para o público variado. O diretor do grupo de dança Funk-se, Edson Cleir, trabalha com todo tipo de aluno nas oficinas que ministra. 

“As pessoas querem aprender a dançar, mas também têm outros objetivos, como socializar, perder peso e diminuir o estresse”. A consciência corporal é um dos benefícios mais buscados, segundo ele. “A gente nasce com esse corpo e às vezes não sabe muito para que ele serve”. Em suas aulas, não é só movimento, tem leitura sobre teoria da dança também.

É menos comum que pessoas não ligadas ao cinema tenham interesse em fazer cursos nessa área, mesmo que de curta duração. Foi o caso da professora de Literatura Carolina Sartomen, 28 anos, que aproveitou uma temporada de oficinas no Museu da Imagem e do Som (MIS) de Campo Grande para aprender sobre linguagem e técnica, assuntos desse universo que não dominava, mas queria entender na condição de espectadora e fã do cinema. Nesse período, ela participou de aulas sobre stop motion, crítica de cinema e roteiro, que lhe renderam a ideia de criar um cineclube na Capital.

Em 2008, ela participou da criação do cineclube Guarani com um grupo de pessoas. Eles mantêm o projeto até hoje, de forma independente. Há exibições mensais de filmes no MIS, mas a intenção é arrecadar dinheiro para comprar um projetor e caixas de som, o que possibilitaria visitas a aldeias indígenas urbanas e a comunidades periféricas.

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