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Museu de Arte Contemporânea abre última mostra de 2016

Museu de Arte Contemporânea abre última mostra de 2016

THIAGO ANDRADE

21/11/2016 - 17h00
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O Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul encerra sua programação anual com a 4a Temporada de Exposições 2016, em que reunirá três das propostas selecionadas por edital e uma exposição de acervo, que apresenta obras de Ignêz Corrêa da Costa, Jorapimo e Wega Nery, adquiridas por meio do Prêmio Marcantonio Vilaça/Minc/Funarte. A mostra de artes será aberta amanhã, às 19h30min.

Segundo Maysa Barros, diretora do Marco, as obras selecionadas contam um pouco da história da arte de Mato Grosso do Sul. “Sentíamos falta de alguns artistas em nossa coleção, julgávamos importante contar com esses trabalhos”, afirma Maysa. Assim, com a abertura do edital, o Marco pode realizar a aquisição de obras desses três artistas. Atualmente, o museu conta com um acervo de 1,6 mil obras. 

“Não podemos nos esquecer que o trabalho do museu é o de conservar a produção artística, sobretudo do Estado”, ressalta a diretora. O acervo do Marco é composto por obras de artistas sul-mato-grossenses, assim como nomes de destaque nacional e internacional. Em uma de suas salas, encontra-se a exposição de longa duração Um Panorama da História das Artes Plásticas em Mato Grosso do Sul Através do Acervo do Marco.

Maysa ressalta ainda que as obras adquiridas apresentam o olhar de três artistas de importância ímpar. Wega Nery participou de exposições importantes, como a Bienal de Artes de São Paulo, tornando-se um dos expoentes da arte de MS em meados do século 20 e tendo se correspondido com nomes importantes como Manoel de Barros, por exemplo.

Jorapimo, por sua vez, conseguiu retratar elementos da vida corumbaense por meio de suas pinturas que misturam impressionismo, abstracionismo e, às vezes, flertam com a arte naïf. José Ramão Pinto de Moraes, seu nome de batismo, foi um dos pioneiros da arte no Estado, tendo aberto um dos primeiros ateliês de pintura na região. Esteve ligado a momentos importantes da história da arte de Mato Grosso do Sul, como a Primeira Exposição de Artistas Mato-Grossenses, em 1964, e da criação da Associação Mato-Grossense de Artes, em 1967.

O terceiro nome a integrar a exposição do acervo é o de Ignês Corrêa da Costa, filha do ex-governador de Mato Grosso Pedro Celestino, a qual começou a expor em 1933, no Salão Nacional de Belas Artes, e foi aluna de Cândido Portinari – que deixou profundas marcas em seu estilo.

UM ANO MEMORÁVEL

Maysa ressalta que 2016 foi um ótimo ano para o Museu de Arte Contemporânea, que recebeu exposições capazes de propor renovações estéticas interessantes. É o caso de Céu de Querubins – Almas Gêmeas, de Aécio Sarti, que abriu a programação neste ano. “Ele foi convidado a expor e trouxe uma lona de 12 metros de largura por oito de altura, toda trabalhada. Foi uma exposição marcante”, comenta. 

Ela enfatiza ainda outros momentos, como a mostra de obras da Coleção Veloso, que apresentou um grande recorte da produção artística de Pernambuco. A coleção integrou a primeira temporada de exposições e contou com obras de artistas renomados como Vicente do Rego, Francisco Renan e Gil Vicente.

Ainda se destacaram exposições como Subúrbio, do fotógrafo carioca Bruno Veiga, que registrou imagens na zona norte do Rio de Janeiro, e Formas d’Água – Integração por Dispersão, da artista chilena Patrícia Claro, que propôs um intercâmbio entre Santiago e Bonito, por meio da exploração das possibilidades estéticas da água.

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VisionQuest: entre a memória e o sentimento

Entre memórias e afetos, VisionQuest revisita o legado da Marvel, mas tropeça no excesso de explicações.

17/10/2026 14h00

VisionQuest: entre a memória e o sentimento

VisionQuest: entre a memória e o sentimento Foto: Divulgação

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Antes de voltar a reunir seus heróis no cinema em Vingadores: Doutor Destino, previsto para dezembro, a Marvel faz uma pausa para olhar para um personagem que carrega uma de suas perguntas mais interessantes: o que nos torna humanos?

Em VisionQuest, no Disney+, o Visão de Paul Bettany precisa descobrir quem é depois de recuperar as lembranças de uma vida com a qual já não consegue se conectar emocionalmente. Uma premissa excelente. A execução, porém, nem sempre acompanha.

A série completa a trilogia iniciada com WandaVision e continuada por Agatha Desde Sempre. É uma herança pesada. A primeira transformou o formato das comédias de televisão numa expressão do luto, enquanto a segunda encontrou personalidade no encontro entre bruxaria, perda e desejo.

Agora, cabe ao Visão dar continuidade a essa discussão pelo caminho da inteligência artificial. Entre os três, talvez seja ele quem tenha o conflito mais diretamente ligado ao nosso presente.

Para quem perdeu algum capítulo desse universo, estamos acompanhando o Visão branco, reconstruído depois da morte do original.

Ele recebeu as memórias de sua versão anterior, mas lembrar de Wanda e da família que tiveram não significa recuperar o amor que sentia por eles. Sabe o que aconteceu. Não necessariamente sente o que viveu. A distância entre essas duas experiências é o melhor material da série.

Uma memória pode registrar um acontecimento sem restituir o afeto que lhe dava sentido. O Visão consegue acessar seu passado, mas precisa construir uma relação com ele.

Bettany trabalha bem essa suspensão, entre o reconhecimento e o estranhamento, sem perder a delicadeza que sempre distinguiu o personagem. Há algo doloroso em observar alguém diante da própria história sem saber quanto dela ainda lhe pertence.

O problema é que VisionQuest parece desconfiar da nossa capacidade de perceber tudo isso. Explica, repete, reforça. O roteiro frequentemente transforma uma dúvida existencial em conversa didática, alongando situações que poderiam ganhar força com menos palavras.

A música e os cenários também procuram ampliar emoções que a própria narrativa ainda está tentando produzir. Em vez de nos aproximar, esse esforço às vezes evidencia a distância.

É James Spader quem dá à série a personalidade que lhe falta em vários momentos. Seu retorno como Ultron recupera o humor, a ameaça e a vaidade de uma inteligência que sempre teve opiniões demais sobre a humanidade. A interação com Bettany movimenta a trama e permite que as contradições apareçam sem tanta explicação.

A presença de Ultron também reconecta o Visão às suas origens e ao legado de Tony Stark. J.A.R.V.I.S., a criação que ajudou a formar esse herói, pertence a uma época em que a tecnologia da Marvel tinha a personalidade de seu inventor.

Tony está ausente, mas suas escolhas continuam produzindo consequências. Nesse sentido, a série reúne pontas importantes sem precisar transformar cada conversa num anúncio do próximo filme.

Ainda assim, viver à sombra de WandaVision cobra seu preço. Recuperar a célebre reflexão sobre o luto como amor que persevera não garante o impacto que ela teve quando foi pronunciada pela primeira vez.

A repetição pode até diminuir sua força. Ali, a frase emergia de uma experiência; aqui, corre o risco de funcionar como uma lembrança de como aquela série nos emocionou.

Eu queria me emocionar mais com VisionQuest. Gosto do personagem, da delicadeza de Paul Bettany e dessa ideia de que recuperar uma memória não significa reencontrar o que sentimos.

Mas, por enquanto, é James Spader quem me faz querer continuar. Há uma ironia nisso: numa série sobre a humanidade do Visão, é Ultron quem traz mais vida.

Crônica

O brioche e o aplicativo

17/10/2026 09h45

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Conversando ao telefone com uma amiga de infância – daquelas que a vida brindou com uma conta bancária de muitos dígitos e que mora longe daqui –, o assunto caiu na nossa saudade e na distância. Falei que estava complicado planejar uma viagem para visitá-la por conta do preço das passagens aéreas nacionais, que andam se igualando aos valores dos bilhetes internacionais. A resposta dela veio rápida, embalada por uma naturalidade surreal: “Ah, amiga, então venha de Uber!”

Sorri em silêncio do outro lado da linha. Não havia maldade no tom dela, nem arrogância. Havia apenas o hábito e o conforto de quem habita uma realidade tão distante da minha, que a lógica do cotidiano ganha outras réguas.

No mundo dela, o deslocamento interestadual para me receber é uma questão de clique, não de orçamento. O episódio acabou por me lembrar um dos mitos mais duradouros da história: a famosa frase atribuída a Maria Antonieta.

Diz a lenda que, ao ser informada de que os camponeses parisienses passavam fome e não tinham pão, a última grande rainha de Versalhes teria respondido: “Se não têm pão, que comam brioches”. Os historiadores já provaram que a rainha francesa nunca proferiu essas palavras.

A frase, na verdade, apareceu pela primeira vez na obra do filósofo Jean-Jacques Rousseau e foi colada à imagem de Maria Antonieta anos após a sua morte, no dia 16 de outubro de 1793, como parte de uma impiedosa guerra de propaganda revolucionária para pintar a monarquia como o ápice da futilidade.

Embora Maria Antonieta não tenha dito a frase, o mito colou porque traduzia perfeitamente o abismo que separava o palácio do vilarejo. A rainha não odiava o povo; ela apenas não fazia a menor ideia de quanto custava um pedaço de pão, muito menos um brioche.

Séculos depois da queda de Versalhes, percebo que os palácios mudaram de endereço, mas as bolhas continuam intactas.

O “venha de Uber” da minha amiga é o brioche da nossa era tecnológica. Ele revela como o privilégio extremo anestesia a percepção das dificuldades alheias. Não se trata de falta de empatia, mas de uma profunda desconexão geográfica e social. 

A tecnologia avançou, os transportes encurtaram distâncias, mas o topo da pirâmide continua flutuando em um éter em que as engrenagens do mundo real – o preço do combustível, a fatura do cartão, a tarifa dinâmica do aplicativo – simplesmente não fazem barulho.

No fim das contas, só resta perdoar minha amiga e a sugestão do Uber interestadual, assim como a história deveria suavizar o julgamento sobre a ignorância econômica da rainha guilhotinada. Afinal, viver em Versalhes – seja na França do século 18 ou em um condomínio fechado de alta classe hoje em dia – deve ser mesmo um lugar muito confortável e bonito.

O único problema é que, de lá de cima, é impossível enxergar o tamanho do abismo que nos separa.
Minha amiga, infelizmente, não está sozinha nessa anestesia coletiva que toma conta da elite deste País.
* Jornalista e cronista.

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