Sábado, 01 de Outubro de 2016

CORREIO B

Memorial da Ferrovia conta história da Noroeste do Brasil em Campo Grande

20 SET 2016Por THIAGO ANDRADE15h:48

Uma das grandes responsáveis pelo desenvolvimento econômico e social de diversos municípios sul-mato-grossenses é, hoje, motivo de lembrança. A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB)começou a ser construída no início do século passado e ligava Bauru, no interior de São Paulo, a Corumbá. Atualmente, a atividade na ferrovia foi reduzida a uma viagem diária, que leva minério de ferro até o porto na região noroeste do Estado.

Na sede da Associação dos Ferroviários, Aposentados, Pensionistas, Demitidos e Idosos (Afapedi/MS), itens de valor histórico ajudam a contar essa história. Lá foi criado o Memorial da Ferrovia, com peças doadas pelos ferroviários, além de itens adquiridos com o objetivo de incentivar a construção da memória em torno da linha ferroviária. “Muita gente viu o auge e a decadência da ferrovia. É uma história que não pode ser esquecida”, comenta Valdemir Vieira, presidente da associação.

Atualmente, o acervo conta com 1,5 mil peças. Desde uniformes e itens de segurança que eram usados pelos profissionais, até bitolas, placas, ferramentas e outros materiais foram reunidos para ajudar a contar a história da Noroeste do Brasil. O espaço, segundo Valdemir, é visitado principalmente por escolas. “Isso aqui é um patrimônio dos trabalhadores. É uma lembrança que fica de uma história que cruzou a vida de muitos”, comenta.

HISTÓRIA CONTURBADA

Neste ano, comemoram-se os 110 anos da inauguração do primeiro trecho da Noroeste do Brasil, que ligava Bauru ao atual município de Guarantã. Em Mato Grosso, a ferrovia começaria a ser construída dois anos depois. Em 1914, os trilhos entre Bauru e Corumbá foram conectados. Assim, Campo Grande também foi incluída nos trajeto, que chegou a contar com 1.622 quilômetros de extensão.  

Segundo Vieira, a ferrovia foi responsável por grande parte do desenvolvimento da cidade e da região. “Em Campo Grande, na época em que chegou, havia cerca de 1,8 mil habitantes. Uma década depois, o número era de 50 mil”, comenta. Durante décadas, o transporte ferroviário foi o principal meio de transporte de cargas – e passageiros – pelo País. A Noroeste do Brasil chegou a ser responsável por 70% desse movimento.

“É um período marcado por glórias; mas, quando as coisas mudaram, muita gente sofreu com isso. Milhares de trabalhadores foram demitidos, alguns deles perderam muitas oportunidades”, comenta. O declínio se deu a partir da privatização da malha ferroviária brasileira, que contava com 22 mil quilômetros. Segundo o presidente da Afapedi, a extensão foi dividida em 10 malhas menores, vendidas a empresas que tivessem interesse.

“Em 1996, ela foi vendida para uma empresa americana. Enquanto o faturamento era de R$ 47 milhões anuais, ela foi vendida por R$ 62 milhões”, conta. O valor ainda foi parcelado em 112 parcelas, que começariam a ser pagas dois anos depois da venda. Isso daria à empresa o direito de explorar a malha arrendada por 30 anos. “A partir disso, a decadência foi grande”, pontua. Cerca de 15 dias depois de assumir a gestão da malha ferroviária, a empresa demitiu 450 funcionários. 

“Todo o operacional, o pessoal da segurança e até da manutenção. As pessoas que trabalhavam nas paradas foram mandadas embora e o trecho ficou livre”, aponta. Em 1998, a empresa estadunidense abandonou os negócios. “A estrada estava detonada. Ninguém nunca pagou um centavo nesse processo de privatização”, critica.

De acordo com Vieira, a associação tem trabalhado para garantir que ex-funcionários consigam acesso aos seus direitos. “Muitos não tiveram como se aposentar. Há documentos aos quais não conseguimos acesso”, aponta. 

Nos tempos áureos, a ferrovia chegou a contar com seis mil funcionários. “Existe uma forte ligação histórica com nosso estado. De cada cinco pessoas, uma tinha alguma ligação com a estrada de ferro, um parente que trabalhava nela”, comenta.

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