Quarta, 26 de Abril de 2017

CORREIO B

Curso destaca papel da iluminação cênica

10 JAN 2017Por CASSIA MODENA14h:58

A iluminação é o que ativa a “caixa-preta” do teatro e segue como elemento essencial para a composição de cada cena, direcionando as experiências e sensações do público. O iluminador cênico – um artista que não aparece – é quem pensa em um roteiro para a luz e opera os equipamentos de iluminação por trás dos palcos. 

É recente o ensino da técnica da iluminação cênica no País, e ainda são poucas as chances de participar de um curso de formação sem ter de se deslocar até as escolas de arte, centralizadas em São Paulo. Por iniciativa de uma iluminadora que morou em Campo Grande, os artistas de Mato Grosso do Sul terão essa oportunidade nesta semana, sem ter de pagar por ela.

Camila Jordão idealizou o curso Iluminação Cênica: Iniciação, Criação e Tendências no Brasil, foi contemplada pelo edital do Fundo de Investimento Cultural (FIC) de Mato Grosso do Sul e vai ministrá-lo com outros dois iluminadores de hoje até 19 de janeiro no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande.  A proposta é a de fomentar a formação no Estado e também aproveitar para trocar conhecimento sobre essa área que parece limitada, mas não é.

“Desde a década de 90, estamos batalhando para trazer cursos assim para o Estado. Vemos que os cursos de Artes Cênicas que foram criados aqui não têm iluminação na grade curricular e estarão formando artistas que não têm conhecimento técnico em iluminação. Ela é parte importante de qualquer espetáculo e é preciso saber sobre ela”, comenta.

A procura superou as expectativas e obrigou a abertura de mais vagas, que de 35 aumentaram para 50. Ao todo, 175 candidatos se inscreveram, formularam suas cartas de interesse e as disputaram. 

O curso é bem prático, segundo Camila, mas não fica devendo na parte teórica. Conceitos básicos sobre espaço cênico, refletores, mapas de luz e roteiro, além de questões sobre tecnologia e criatividade serão discutidos. “Queremos fortalecer essa classe, ajudar quem está começando e quem já está trabalhando. E vamos falar do futuro, tentando caminhar mais rápido para chegar a um ponto comum em que todo mundo esteja falando a mesma língua e também provocar os participantes a buscar mais formação nessa área”.

Iluminadora cênica há sete anos, Camila Jordão trabalhou com o também iluminador Jorginho de Carvalho, profissional renomado no País que tem mais de 50 anos de mercado. Estudou na SP Escola de Teatro e colaborou profissionalmente com os grupos Corpomancia, Cia. Dançurbana, Fulano Di Tal, Prosa e Segredo, Escola Duo de Balé, com a banda Hermanos Irmãos e com o cantor Márcio de Camillo. 

CONVIDADOS

O curso também trará outros três iluminadores profissionais – César Germano, Aline Santini e Roberto Gill Camargo –, nomes que são referência no País.

Germano e Santini ministram dois módulos do curso, ele sobre “História da iluminação e tecnologia” e ela sobre “Criação de luz”. Já Camargo fará uma palestra sobre Criação e Leitura de Luz, aberta aos participantes e público em geral, marcada para o dia 16, às 17h. No último dia de curso, o trio de convidados fecha a participação com uma mesa-redonda sobre Iluminação Cênica e Tendências no Brasil.

Aline já ministra oficinas, mas revela estar ansiosa pela experiência em Mato Grosso do Sul. “Porque essa oportunidade que o Estado está proporcionando é muito genuína, sobretudo, para pessoas que já trabalham na área e precisam se abrir para aprender algo novo. Isso, de virem pessoas de diferentes lugares, falar em um outro lugar, é muito positivo. E eu também espero por essa oportunidade de trocar conhecimento, de conhecer essas pessoas”.

Graduada em Artes Visuais, pós-graduada em Lighting Design pela Faculdade Belas Artes e formada na Academia Internacional de Cinema (AIC), Santini atua com iluminação há 16 anos e traz no currículo trabalhos com grandes diretores, companhias, artistas de teatro, dança e performance. 

Sua participação não servirá para dar fórmulas prontas aos alunos e, sim, para dar subsídios para que eles desenvolvam seus próprios métodos de criação. “Até porque você não ensina ninguém a ser artista. O que vamos fazer é basicamente dar referências, instrumentos e falar das possibilidades e dos caminhos para se inspirar e para criar uma luz. A intenção é abrir os caminhos para a iluminação e ajudar os oficineiros a criarem um repertório comum e aprenderem por si a usar a luz como linguagem. Eu acredito que ela seja capaz de expressar, de contar uma história, e é sobre isso que iremos falar”. 

VANGUARDA

A arte da iluminação ainda era pouco explorada nos palcos sul-mato-grossenses no início da década de 90, época em que o iluminador Luiz Sartomen voltou a morar em Campo Grande. Ele veio do Rio de Janeiro (RJ), onde realizou cursos e acumulou importantes experiências. 

O artista aprendeu tudo na prática, mas sentiu diferença após a formação. De volta ao Estado, trouxe técnicas e conhecimentos até então novos para as poucas pessoas que se aventuravam a trabalhar na área e compartilhou o que sabia em oficinas. “Havia muito improviso. Poucos pensavam e faziam a iluminação cênica. Quando não tinha um iluminador, só davam um jeito de acender a luz no teatro e pronto. Só depois a iluminação começou a virar uma escola”, enfatiza.

Orgulha-se de ter formado artistas locais que estão em plena atividade hoje em dia e de ter virado referência no meio. Ele também não parou. Passou outra temporada no Rio, voltou e tem se dedicado a trabalhos com o grupo de dança Ginga, shows musicais do cantor Geraldo Espíndola e da cantora Giani Torres. Continua iluminando também as peças teatrais, que são os trabalhos com os quais ainda se identifica mais. 

Como gosta de definir, “a iluminação é o que veste o espetáculo, a cenografia. É a última que chega, é o acabamento. Sem a luz não tem emoção, tudo fica frio como em um ensaio. Em todos esses anos, entendi que a luz é que dá a direção do espetáculo”.

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