Quinta, 27 de Abril de 2017

CORREIO B

Criatividade e reflexão, marcas de obras clássicas da literatura

3 ABR 2017Por THIAGO ANDRADE16h:00

De tempos em tempos, notáveis  escritores do século 20 publicaram grandes volumes que desafiam os leitores ainda hoje pela criatividade e pelo experimentalismo, conheça algumas dessas obras fundamentais.

“Ulisses”, de James Joyce

Do que trata “Ulysses” (Penguin Companhia, R$ 54,90), de James Joyce? A pergunta pode encontrar várias respostas, mas o enredo é particularmente simples: um dia na vida de um homem comum, Leopold Bloom, um agente de publicidade, que vive em Dublin, na Irlanda. As mais de mil páginas foram publicadas em 1922 e acabaram sendo censuradas em diversos países em razão das descrições de aspectos fisiológicos considerados até então, impublicáveis. 

A simplicidade do enredo esconde um intrincado quebra-cabeças que une referências a obras clássicas como a Odisseia – da qual o herói dá título ao livro de James Joyce – de Homero. Neologismos, mudanças de estilo literário a cada capítulo, fluxos de consciência quase  impossíveis de serem acompanhados, longos poemas que se fundem à narrativa, uma das maiores obras de Joyce é repleta de enigmas que, segundo o escritor, deveriam “manter os professores ocupados durante séculos discutindo sobre o que eu quis dizer”.

Apesar das dificuldades, a obra é muito bem-humorada ao apresentar as desventuras de seu protagonista e mostrar como a epopeia do homem comum pode ser tão  épica quanto a dos grandes heróis da literatura.

“Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa

“Nonada”. Assim se inicia uma das principais obras literárias brasileiras do século XX. João Guimarães Rosa continua: “Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja”. E assim segue pelas cerca de 500 páginas de “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira, R$ 59), emulando uma linguagem hermética que leva para a escrita o universo sertanejo e suas figuras, assim como as suas lendas e mitos. 

É o jagunço Riobaldo quem narra. O enredo mistura lembranças de diversos momentos da vida do personagem à narração das aventuras vividas ao lado de um grupo de jagunços pelo interior de Minas, Bahia e Goiás. Assim como  a linguagem da obra se constrói como uma miscelânia de estilos, pode-se dizer o mesmo das crenças do protagonista. Em suas andanças, ele conhece Diadorim, por que nutre profunda amizade e não sabe distinguir bem seus sentimentos. 

Resgatando a narrativa alemã do Doutor Fausto, Guimarães indica a possibilidade de um pacto com o diabo, que deixa o leitor em suspenso. Publicada em 1956, “Grande Sertão: Veredas” é o tipo de livro feito para ser lido e relido. Cada encontro com a obra é único.

“O Jogo da Amarelinha”, de Julio Cortázar

Julio Cortázar nasceu na Embaixada da Argetina, na Bélgica. Embora tenha morrido em Paris, sempre se considerou um autor argentino. Tinha 49 anos quando publicou sua maior obra: “O Jogo da Amarelinha” (Civilização Brasileira, R$ 84,90) – “Rayuela”, em espanhol. A obra, com suas 640 páginas, experimenta novas maneiras de contar uma história por meio de um jogo que o leitor pode ou não respeitar.

Há múltiplas maneiras de ler o livro. O leitor pode começar linearmente e seguir do 1 ao 56 e terá descoberto a história de um triângulo amoroso envolvendo um intelectual uruguaio chamado Horacio Oliveira. Outra opção é iniciar a história a partir do capítulo 73 e seguir um mapa de leitura proposto pelo autor. Há também a possibilidade do leitor descobrir seu caminho, esse costuma ser o mais arriscado.

O enredo se desdobra entre Buenos Aires e Paris e o protagonista é Horacio. Os caminhos que esse personagem seguirá, no entanto, dependem das escolhas de leitura. Por isso, Cortázar insistiu diversas vezes que seu livro deveria ser montado por aquele que o lê. É uma aventura e tanto.

“Os Detetives Selvagens”, de Roberto Bolaño

Embora não seja a obra mais volumosa de Roberto Bolaño, “Os Detetives Selvagens” (Companhia das Letras, R$ 64,90) é com certeza aquela que o colocou no panteão dos grandes – e enigmáticos – escritores. Publicada em 1998, é considerada a obra que iniciou a literatura do século 21. Embora os protagonistas sejam os poetas real-viscelaristas Ulisses Lima e Arturo Belano, a narrativa ofereça apenas relances sobra sua trajetória em busca de Cesárea Tinajero, uma misteriosa e desaparecida poeta da vanguarda mexicana.

A primeira parte é um diário de um jovem chamado Juan García Madero, que acaba de chegar à Cidade do México. Na segunda parte o livro se torna ainda mais interessante – e labiríntico – ao reunir dezenas de relatos de personagens ligados ou não à narrativa. Se alguns deles dão notícias sobre o paradeiro de Lima e Belano, outros divagam sobre a poética latino-americana, as questões políticas chilenas e outros tópicos que ressaltam a afiliação de Bolaño ao que se chamou de “literatura do excesso”.

Ao final de mais de 600 páginas, o leitor pode se sentir desnorteado, sem saber exatamente como chegou ali, mas com a certeza de ter lido páginas incríveis.

“Graça Infinita”, de David Foster Wallace

Ao se falar de David Foster Wallace é impossível escapar do que se denominou de “pós-modernismo”. E “Graça Infinita” é o ápice dessa afiliação. Em 1,1 mil páginas, o escritor norte-americano constrói uma ficção distópica na qual os Estados Unidos e o Canadá foram substituídos pela Organização de Nações Norte-Americanas. Separatistas enfrentam a Onan com atos terroristas e o tempo agora pertence a grandes corporações.

Esse é apenas o pano de fundo para que Wallace trace a trajetória dos irmãos Incandenza. Eles devem dar conta do legado do patriarca James Incandenza, um cientista de óptica que se tornou cineasta e cometeu suicídio depois de produzir um misterioso filme que, pela alta voltagem de entretenimento, levava seus espectadores à morte. Os terroristas e a Onan estão disputando a produção para usá-la como arma genocida.

Não bastasse o volume de páginas e o enredo absurdo, David Foster Wallace era fanático por notas de rodapé, que podem ocupar dezenas de páginas. Em “Graça Infinita” são mais de 300. Publicada em 1996, disputa com “Os Detetives Selvagens” a paternidade literária do século 21.​

 

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