Quinta, 27 de Abril de 2017

CORREIO B

Com tantas informações falsas circulando, saiba como identificar boatos

29 MAR 2017Por CASSIA MODENA16h:00

“Luan Santana se nega a fazer show em MS”, “Brasileiro descobriu a cura do câncer”, “Cuidado com mulher loira que sequestra crianças na saída de escola” – esses são só alguns dos últimos boatos e informações falsas que foram disseminados pelas redes, passaram pelo boca a boca e foram tomados como verdade sem qualquer questionamento por muita gente.

A afirmação sobre o cantor sertanejo, por exemplo, foi desmentida há pouco mais de um ano pelo site de checagem Boatos.org. Os métodos utilizados pela equipe da página para verificar a veracidade foram simples e poderiam ter sido aplicados por qualquer pessoa, em cerca de 10 minutos: pesquisa na agenda e site oficial de Luan, busca pela mesma informação em canais confiáveis e apuração sobre a origem da nota.  

CIDADANIA

Desde 2013, a equipe do site realiza o trabalho de detectar e desmentir boatos que circulam na Web, para que os usuários não propaguem mentiras e deixem alguém no prejuízo. Afinal, não foram poucas as vezes que uma pequena mentira se transformou em um grande transtorno. O jornalista e criador do site, Edgard Matsuki, dá o exemplo da onda de boataria que se espalhou no Facebook em 2014 e levou a dona de casa Fabiane Maria de Jesus a ser linchada e morta em Guarujá (SP), por causa de falsas acusações sobre sequestro e bruxaria. Esse caso não foi apurado por eles porque, na época, havia muitas demandas. “Faltou braço para apuração, mas penso que se tivéssemos conseguido publicar a morte poderia até ser evitada”, lamenta.

Praticamente todos os temas já esclarecidos por ele e pelos outros dois jornalistas que integram a equipe são identificados com a ajuda dos leitores. “Recebemos cerca de 300 mensagens por dia, a maior parte delas é com sugestões de boatos para apurarmos. Fora isso, as pessoas também enviam elogios pelo trabalho que estamos desenvolvendo e até relatam situações que passaram por causa de boatos que viralizaram”. 

A princípio, Edgard havia pensado em criar o site só para praticar as técnicas de apuração que usa no dia a dia de sua profissão. Em pouco tempo, o alcance e a função da página se ampliaram, e o Boatos.org. acabou se tornando uma “ferramenta para a cidadania”, como avalia o jornalista. 

INTERESSES

Não há consenso sobre a possibilidade de viver sem dizer uma mentira, no entanto ninguém duvida do estrago que uma informação falsa pode causar quando se espalha. Mesmo com mais acesso aos meios e métodos de checagem disponíveis, os boatos seguem firmes e fortes no mundo concreto e – nem se fala – no mundo virtual. Mas que interesses podem estar por trás de uma mentira?

Uma resposta para essa questão tem relação com a necessidade de se autoafirmar e satisfazer o ego. O psicólogo Júlio Furlaneto explica que a recompensa para quem espalha uma mentira é “o prazer de poder influenciar ou manipular um contexto ou uma pessoa, através daquela informação distorcida ou pelo prejuízo do outro, acreditando ter algum benefício secundário em cima da ocasião”.

Outra possibilidade é o boato ter se originado de uma interpretação enganosa da própria fonte. Na ânsia de divulgar informação que acredita ser útil para as demais pessoas, ela ignora o cuidado de filtrar o que lê ou escuta e dispensa o trabalho de garantir sua veracidade antes de passá-la adiante. 

Segundo o especialista, o hábito de não questionar – tanto por parte de quem emite quanto de quem recebe a informação – pode estar relacionado à zona de conforto. “É comum grande parte das pessoas não aceitar o fato de estar em alguma zona de conforto, mas quanto mais verdade souber, mais terá que pensar, refletir e participar da situação. Isso desperta novas emoções e percepções de vida, o que é muito bom, porém gera desconforto pelo trabalho em lidar com o novo”, descreve.

CONVICÇÕES

Sobre impulso de aceitar mentiras como verdade sem refletir sobre elas, o psicólogo ainda considera uma tendência relacionada às convicções pessoais de cada um. “A pessoa tende a se apropriar de conteúdos e verdades que reflitam seus próprios conceitos internos. Por exemplo, se um caso de agressão é exposto e ela sente repúdio por casos de agressões, é provável que queira reforçar o ocorrido, projetando mais raiva sobre o boato”, detalha Júlio.

Separar o que acredita do que recebe do “mundo externo” é praxe para o agente administrativo Eric Lima, 26 anos. “Não costumo tomar nada como verdade absoluta.Tento fazer uma filtragem do que está sendo divulgado, buscando em fontes mais confiáveis elementos que me ajudem a compreender melhor o fato e a verificar até onde aquilo é verdade ou não”, diz. 

É importante saber, na opinião de Eric, que a internet é uma faca de dois gumes. Ele explica o por quê. “Quando o assunto é a disseminação de boatos e notícias falsas percebemos que é assim que funciona. Ao mesmo tempo que contribui para a agilidade dos compartilhamentos de desinformação, ela continua sendo a melhor ferramenta para verificar a veracidade do que está sendo dito”.

Pensar e refletir duas, três, dez vezes antes de compartilhar uma informação duvidosa também é um hábito da enfermeira Ingridy Rocha, 25 anos. “Isso acontece sempre no meu ambiente de trabalho, inclusive. É comum o paciente distorcer e aumentar o que foi dito por um profissional e ir passando aos outros pacientes uma informação errada, causando transtornos para todos”, relata.

CICLO

No caso em que a informação causa danos diretos a uma pessoa, há meios jurídicos para solucionar a situação e buscar uma indenização pelo prejuízo. Já para os possíveis prejuízos emocionais e sociais, não há garantias de que o problema possa ser atenuado. Há casos em que a situação pode até levar a vítima a cometer suicídio.

Para não contribuir com o ciclo vicioso do boato, o psicólogo recomenda cautela e discernimento. 

“É importante reforçar que não cabe a nós julgar as ações dos outros. Há um campo jurídico para lidar com toda e qualquer situação de prejuízo com embasamento e avaliação real de quem comete alguma situação do gênero. Quando são informações de situações pesadas, como um crime, um boato negativo ou qualquer outra coisa nesse sentido, o ideal é mostrar um parecer descritivo sempre em busca de possíveis soluções, sem projeção de raiva, discurso de ódio ou qualquer conduta que acabe por reforçar o que já está ocorrendo de ruim. Somos responsáveis por tudo aquilo que falamos e digitamos”, finaliza.

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