Quinta, 08 de Dezembro de 2016

CORREIO B

Ações em Campo Grande incentivam o hábito da leitura entre jovens

13 OUT 2016Por CASSIA MODENA16h:28

Historicamente ignorados pelo mercado editorial brasileiro – que só foi pensar neles como nicho a partir do século 20 –, as crianças e os adolescentes dos 5 aos 17 anos compõem a faixa etária que mais lê no País, segundo pesquisa do Ibope, encomendada pelo Instituto Pró-Livro (IPL) em 2015. 

“Diário de um Banana”, “A Culpa é das Estrelas” e “Harry Potter” estão entre os títulos mais citados pelas pessoas entrevistadas pela pesquisa. Voltadas para o público infantojuvenil, essas obras dividem espaço com outras dos gêneros religiosos, de autoajuda e ficção para adultos, nas listas de títulos mais mencionados no questionário e títulos mais marcantes segundo os entrevistados.

As leituras preferidas da estudante Brenda Vital, 14 anos, encaixam-se nesse perfil. Ela gosta de obras realistas de autores teens, e está sempre em busca de histórias sobre drama, que rendam a ela uma espécie de leitura-conversa “que me aconselhe sobre como lidar com as perdas e a dor”. É fã da autora Bianca Briones, blogueira que virou fenômeno nas redes e publicou diversos títulos literários do gênero new adult, como “As Batidas Perdidas do Coração” – que Brenda terminou de ler há pouco.

Letícia Zanardi, 11 anos, também lê mais os títulos infantojuvenis, mas gosta especialmente de histórias que decorrem com suspense e guardam surpresas para o final. Romance e mistério são seus temas preferidos. Na escola, ela é uma das alunas de sua turma que mais lê e, em casa, fica em média 10 horas por semana aficionada pelas páginas dos livros. É fã de Alyson Noël, autora de oito best-sellers e conhecida pela adaptação da saga “Crepúsculo”.

A geração de Brenda e Letícia tem mais acesso a bens culturais – produtos do processo cultural de uma sociedade. A internet tornou isso possível e fez surgir outros formatos de leitura, como e-books e audiolivros, por exemplo. Provavelmente, as duas não leriam tanto ou não teriam tantas oportunidades de leitura se tivessem nascido na década de 1980. 

HÁBITOS

Longe de classificar os títulos mais vendidos pelas livrarias aos adolescentes como obras vazias, a professora e mestre em Linguística Neli Betoni acredita que eles são o caminho para a construção do hábito de ler. “Alguns criticam o consumo da leitura massificada, mas é preciso ler de tudo, e eu vejo isso com bons olhos. É o começo. Depois, a escola pode desenvolver trabalhos com esses livros, explorando uma leitura crítica deles. Mas, ainda assim, precisamos apostar na autonomia de leitura dos jovens, assim é muito mais fácil que eles comecem a querer ler”.

Fazer leituras “fragmentadas” é um traço dos novos leitores – e pode ser dos mais velhos também. É comum ler durante curtos períodos, com grandes pausas, e não chegar ao final do que se começou a ler. Falta organização e disciplina para mudar esse quadro, de acordo com Neli. 

“Podemos até ler mais de uma obra ao mesmo tempo. Os especialistas dizem que isso faz bem ao cérebro, mas temos que cuidar de começar a leitura e terminar. Talvez  algumas pessoas precisem de maior organização e disciplina. Comece e termine a leitura. Não fique apenas nas primeiras páginas. Precisamos nos desafiar, ler mais e mais.”

É importante que o hábito comece cedo, conforme a professora, e que o livro seja apresentado como “um prato doce” para a criança. Sem impor a ela o sentido de obrigação, os familiares podem envolvê-la na leitura com afetividade e auxiliar a interpretação da narrativa. Os benefícios vão desde melhora na cognição e concentração, até a redução da ansiedade. Ela acrescenta ainda que “oferecer leitura de livros à criança é dar oportunidade para ela ser uma pessoa equilibrada e menos ansiosa. A leitura é um ato de amor, pois favorece a construção de pessoas mais criativas e sensíveis”. 

TV, INTERNET E LIVRO

Ler posts do Facebook, assistir a vídeos, ver desenhos animados na televisão e participar de fóruns sobre games também são formas de ler o mundo e aprender. Elas tornam-se um problema somente quando são os únicos conteúdos buscados pelas crianças e pelos adolescentes.

As fãs da literatura teen, Brenda e Letícia, procuram equilibrar o tempo em que passam expostas ao computador, à televisão e às páginas dos livros. Elas preferem os livros físicos e gostam mais de ler à noite, antes de dormir, em vez de ficarem em frente à tela eletrônica.

ESCOLA

As meninas conseguem dividir o tempo, mas essa pode ser uma dificuldade de vários de seus amigos e colegas, segundo o jornalista e escritor Genival Mota. 

Preocupado em orientar alunos de escolas públicas da periferia de Campo Grande quanto ao uso do tempo e interessado em auxiliar os professores na introdução de títulos clássicos em sala de aula, ele se dispõe voluntariamente a visitar as instituições e conversar com os estudantes sobre o que estão lendo e sobre como leem. Ele organiza um “cardápio literário”, com base no acervo da biblioteca de cada escola, e o entrega aos alunos. “Digo sempre a eles que a leitura é a única ‘tábua’ para crescer na vida”, conta Genival.

A cada visita, ele prepara uma apresentação sobre a vida e obra de escritores brasileiros – segundo ele, uma tática que pode estabelecer alguma proximidade entre leitor e escritor – e, por fim, sugere algumas leituras. 

“A literatura é a ‘menina dos olhos’ da escola, permite unir fantasia e realidade”, acredita o escritor. Ele já publicou 12 livros voltados a estudantes do Ensino Fundamental e os vende nas escolas por apenas R$ 12. As obras são curtas e de linguagem simples. Alguns dos títulos são “Para Entender Alice no País das Maravilhas” e “Para Entender O Pequeno Príncipe”. 

Na Escola Estadual José Maria Hugo Rodrigues, também na Capital, a estratégia para fomentar a leitura de clássicos foi criar, dentro de um projeto literário, uma gincana com os estudantes do primeiro e segundo ano do Ensino Médio. Eles encenam, respondem  um quiz sobre as escolas literárias e declamam poesias autorais para uma plateia. O desempenho é avaliado por uma banca de professores. 

A professora de língua portuguesa e coordenadora pedagógica da escola, Greicy Kelly Menezes, comemora o empenho e a participação da maioria dos alunos na competição. “Estamos alcançando o objetivo de aproximá-los da leitura. Sabemos que às vezes falta disciplina, mas os resultados têm sido muito bons.”

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